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oração das manhãs
genuflexões
sobre a gastrite
ferro quente
água-benta
de fel
saliva
jarro de bílis
um nada
e clareia
dia fere.
um dia será ferido.
gosto
múltiplas borboletas
gosto delas.
pele-asa
esfarela multicor
púrpuras texturas
sopro
digitais de sóis poentes
Pollock
Pollock estático e
a enorme tela
ofusca a outra do vídeo
cegueira
equilíbrio
na lasca de unha
rente ao fio transparente.
vermelho suor
rasga geometrias
arquitetadas de amarelo-sangue.
sangria
loucura
quase estertor
Pollock emporcalhado
noite e dia
em êxtase.
Prisma humano
sem limite
branco.
Balaio
de Textos (João Silvério
Trevisan. no site do SESC-SP)
Noite
de São José
bordados portugueses
sobre a toalha plástica
no bar diante
do mercado.
portões fechados
trânsito algum
copos vazios.
ao fundo
apenas a canção
japonesa
transita no peito
atrás do balcão.
do livro "Mulheres de São
José / Outros poemas" 1996
Irmão
arrancar a boca
em nome do homem
que nunca
em seus lábios
um beijo houve.
do livro "Mulheres de São
José / Outros poemas" 1996
Pai
hoje meu pai morreu
lavei os olhos
penteei os cabelos
mirei-me.
onde está a criança
e a mesa quente
do café matutino?
mirei-me.
34 anos passados,
e eu não salivo mais.
do livro "Mulheres de São
José / Outros poemas" 1996
Lua
tese:
black-out
no espaço.
antítese:
qual loba
no cio
qual bicho
vadio
farejo
nos becos
um beijo.
sou meia
no escuro
inteira
aos bruxos
cadente
desejo.
a baba
vem crua
crateras
no ventre
nos dentes...
síntese:
em noite
de lua
sou fêmea
da rua
sou parto
crescente
do livro "Mulheres de São
José / Outros poemas" 1996
Outono
quando era jovem
a dor doía
horizontal
bastava o pôr-do-sol
e os dias não eram iguais
hoje o outono escorre nos vitrais
e no outono a dor é
vertical
trajo vestes escuras
e baixo os olhos quando vejo o
horizonte
assim a dor
afunda meus pés no chão
amarra o nariz ao queixo
e a boca cerrada rumina terra
do livro "Mulheres de São
José / Outros poemas" 1996
Eu
sou louca.
campainhas me dão sobressaltos.
com saltos altos
os traços nos olhos saem tortos.
esqueço agendas.
a lucidez me deixa tonta.
muitos papéis fazem tremer
meus dedos.
ruídos estouram meus tímpanos.
já não rezo faz tempo.
costumo danças sozinha
ou com um par imaginário.
trago queimaduras de cozinha.
salgo demais.
louca...
torço aos sermões de montanhas
e montes.
quem sabe
na hora do abismo
caminho sobre as águas.
do livro "Mulheres de São
José / Outros poemas" 1996
Diamante
Beth
Brait Alvim
"...para tecer meu místico
diadema preciso fora impor os
tempos e universos" Bénédiction,
Charles Baudelaire
irmão
de sangue
mídia moeda câncer
ouro negro indigente
silicone seringas agulhas
destilados farinha pedra
celulite anabolizantes
e fome.
males dos tempos...
século XX?
veias abiertas
vírus filas antraz lixo tóxico
gastrites síndromes hospitais
mais?
HIV INSS TPM CPMF MP FMI
e todo way of life
todo USA
e qualquer SNI
e todo vil homem mandado
e toda fé filha do medo
e ainda
guerra civil carandiru hospício
migrante febem comício
imagem cingapura clonagem
cativeiro candelária imagem
depressão...
patativa do assaré
becos de goiás
ipiranga e avenida são joão
banzo de tristes trópicos
males
do século...
estufa holocausto
câmaras de ozônio e gás...
cadeiras elétricas torres e igrejas
via
crucis
indulgências edemas...
favelas mangue sertão
trabalho escravo
farto sangue irmão
depressão
e voyeurismo
fetichismo
fanatismo
cinismo
neoliberalismo
consumismo
ceticismo
...ismos,
ismos...
caras
e bundas e anorexia...
anfetamina hipocondria esquizofrenia
a coca o crack o ecstasy
nets chats and hakers
...fobia,
fobia...
e pedofilia...
crianças sexuais televiciadas
extinção...
ah!
e o serial killer de centavos de
reais...
um
e outros
rubro e grosso edema carnal
tal catchup na mesa
vasilhame plástico em promoção
vermelho grosseiro
escuras carreiras
em eterna combustão
veias
abiertas...
II
ah!
mérica...
my self é distante...
mix global de faturas
acéfalo quebra-cabeças
multisuturas...
ah!
mantikir
serra-matas e mortalhas
dores e ardores seculares
daqui e donde vim
onde?
III
ah!
mantikir
minha mantiqueira serra
goteja lágrimas de atlânticas
eras
e banha ninfa ilha que cedo serena
desvairada
diadema
e
muito depois deste século
duas terras-rubro-latino-pulsantes
cravam no solo urgente
diamante
gotejam sangue
transfusão
de poemas
beth
brait alvim, são josé dos
campos/diadema 1999-2002
Antologia "Tempos
Perplexos" realização
do Departamento de Cultura de Diadema.
Concepção, seleção,
organização: Beth Brait
Alvim
oración de
las mañanas
genuflexiones
sobre la gastritis
hierro caliente
agua bendita
de hiel
saliva
jarro de bilis
una nada
y clarea
el día hiere.
un día será herido.
me gustan
múltiples burbujitas
me gustan.
piel-asa
esferilla multicolor
púrpuras texturas
soplo
digitales de soles ponientes
Pollock
Pollock estático
y la enorme tela
oscurece la otra del vídeo
ceguera
equilibrio
en el trozo de uña
junto al hilo transparente
rojo sudor
rasga geometrías
en arquitectura de amarillo sangre
sangría
locura
casi estertor
Pollock embrutecido
noche y día
en éxtasis.
Prisma humano
sin límite
blanco.
(Traducción
al español: Antonio Alfeca)
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