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Beth Brait Alvim


a autora?

Livro: Ciranda dos tempos

Fotos

entrevista*(em construção)

poemas(português/español)

do livro "Mulheres de São José / Outros poemas" 1996
Antologia "Tempos Perplexos"
outros poemas/poesias
poesía en español

prosa

Sobre obra poética/fortuna crítica(em construção)

contato: bethbrait@hotmail.com




oração das manhãs

genuflexões
sobre a gastrite
ferro quente
água-benta
de fel
saliva
jarro de bílis
um nada
e clareia
dia fere.
um dia será ferido.


gosto

múltiplas borboletas
gosto delas.
pele-asa
esfarela multicor
púrpuras texturas
sopro
digitais de sóis poentes


Pollock

Pollock estático e
a enorme tela
ofusca a outra do vídeo
cegueira
equilíbrio
na lasca de unha
rente ao fio transparente.
vermelho suor
rasga geometrias
arquitetadas de amarelo-sangue.
sangria
loucura
quase estertor
Pollock emporcalhado
noite e dia
em êxtase.
Prisma humano
sem limite
branco.

Balaio de Textos (João Silvério Trevisan. no site do SESC-SP)




Noite de São José

bordados portugueses
sobre a toalha plástica
no bar diante
do mercado.
portões fechados
trânsito algum
copos vazios.
ao fundo
apenas a canção
japonesa
transita no peito
atrás do balcão.

do livro "Mulheres de São José / Outros poemas" 1996


Irmão

arrancar a boca
em nome do homem
que nunca
em seus lábios
um beijo houve.

do livro "Mulheres de São José / Outros poemas" 1996


 

Pai

hoje meu pai morreu
lavei os olhos
penteei os cabelos
mirei-me.
onde está a criança
e a mesa quente
do café matutino?
mirei-me.
34 anos passados,
e eu não salivo mais.


do livro "Mulheres de São José / Outros poemas" 1996


 


Lua

tese:
black-out
no espaço.
antítese:
qual loba
no cio
qual bicho
vadio
farejo
nos becos
um beijo.
sou meia
no escuro
inteira
aos bruxos
cadente
desejo.
a baba
vem crua
crateras
no ventre
nos dentes...
síntese:
em noite
de lua
sou fêmea
da rua
sou parto
crescente



do livro "Mulheres de São José / Outros poemas" 1996


 


Outono

quando era jovem
a dor doía
horizontal

bastava o pôr-do-sol
e os dias não eram iguais
hoje o outono escorre nos vitrais
e no outono a dor é
vertical

trajo vestes escuras
e baixo os olhos quando vejo o
horizonte

assim a dor
afunda meus pés no chão
amarra o nariz ao queixo
e a boca cerrada rumina terra


do livro "Mulheres de São José / Outros poemas" 1996


 


Eu


sou louca.
campainhas me dão sobressaltos.
com saltos altos
os traços nos olhos saem tortos.
esqueço agendas.
a lucidez me deixa tonta.
muitos papéis fazem tremer
meus dedos.
ruídos estouram meus tímpanos.
já não rezo faz tempo.
costumo danças sozinha
ou com um par imaginário.
trago queimaduras de cozinha.
salgo demais.
louca...
torço aos sermões de montanhas
e montes.
quem sabe
na hora do abismo
caminho sobre as águas.

do livro "Mulheres de São José / Outros poemas" 1996


 



Diamante
                       Beth Brait Alvim


"...para tecer meu místico diadema preciso fora impor os
tempos e universos" Bénédiction, Charles Baudelaire

irmão de sangue
mídia moeda câncer
ouro negro indigente
silicone seringas agulhas
destilados farinha pedra
celulite anabolizantes
e fome.
males dos tempos...
século XX?
veias abiertas
vírus filas antraz lixo tóxico
gastrites síndromes hospitais
mais?
HIV INSS TPM CPMF MP FMI
e todo way of life
todo USA
e qualquer SNI
e todo vil homem mandado
e toda fé filha do medo
e ainda
guerra civil carandiru hospício
migrante febem comício
imagem cingapura clonagem
cativeiro candelária imagem
                                        depressão...

patativa do assaré
becos de goiás
ipiranga e avenida são joão
banzo de tristes trópicos
                                        males do século...
estufa holocausto
câmaras de ozônio e gás...
cadeiras elétricas torres e igrejas
                                        via crucis
indulgências edemas...
favelas mangue sertão
trabalho escravo
farto sangue irmão
                                        depressão
e voyeurismo
fetichismo
fanatismo
cinismo
neoliberalismo
consumismo
ceticismo
                                       ...ismos, ismos...

caras e bundas e anorexia...
anfetamina hipocondria esquizofrenia
a coca o crack o ecstasy
nets chats and hakers
                                       ...fobia, fobia...
e pedofilia...
crianças sexuais televiciadas
extinção...

ah! e o serial killer de centavos de reais...

um e outros
rubro e grosso edema carnal
tal catchup na mesa
vasilhame plástico em promoção
vermelho grosseiro
escuras carreiras
em eterna combustão

                                        veias abiertas...


II

ah! mérica...
my self é distante...
mix global de faturas
acéfalo quebra-cabeças
multisuturas...

ah! mantikir
serra-matas e mortalhas
dores e ardores seculares
daqui e donde vim
                                         onde?

III

ah! mantikir
minha mantiqueira serra
goteja lágrimas de atlânticas eras
e banha ninfa ilha que cedo serena
                                         desvairada diadema
e
muito depois deste século
duas terras-rubro-latino-pulsantes
cravam no solo urgente
                                         diamante
gotejam sangue

transfusão
de poemas


beth brait alvim, são josé dos campos/diadema 1999-2002


Antologia "Tempos Perplexos" realização do Departamento de Cultura de Diadema.
Concepção, seleção, organização: Beth Brait Alvim




oración de las mañanas

genuflexiones
sobre la gastritis
hierro caliente
agua bendita
de hiel
saliva
jarro de bilis
una nada
y clarea
el día hiere.
un día será herido.



me gustan

múltiples burbujitas
me gustan.
piel-asa
esferilla multicolor
púrpuras texturas
soplo
digitales de soles ponientes




Pollock

Pollock estático
y la enorme tela
oscurece la otra del vídeo
ceguera
equilibrio
en el trozo de uña
junto al hilo transparente
rojo sudor
rasga geometrías
en arquitectura de amarillo sangre
sangría
locura
casi estertor
Pollock embrutecido
noche y día
en éxtasis.
Prisma humano
sin límite
blanco.

(Traducción al español: Antonio Alfeca)

© GRUPO PALAVREIROS - 1999/ 2006
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