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Cultura
na TV
Márcio
Coutinho
Considerando
a situação de carência cultural e a escassez
de equipamentos para a atuação das artes junto às
comunidades, o Brasil vive um momento de empobrecimento de programações
culturais.
Os
produtores culturais queixam-se da falta de espaços adequados
e da falta de público para prestigiar as atrações;
o Ministério da Cultura diz que existe uma demanda por
projetos que possibilitem a criação de eventos que
façam nascer uma agenda permanente. Outros culpam a falta
de interesse de empresários em apoiar projetos, já
que a verba para tais investimentos é inviável.
Em
meio a este retrato onde ninguém tem coragem de refletir
radicalmente sobre a situação da cultura, e muito
menos tomar medidas construtivas, estão o artista e o povo.
O artista fomenta a idéia de encontrar o público
e colocá-lo diante de seu trabalho, já o povo, a
grande massa, está cada vez mais imersa no baixo nível
de leitura, distanciando-se da arte e direcionando seu lazer cultural
na televisão, na videolocadora e video-games.
Num
país onde é marcante o desinteresse pela cultura,
onde uma ida ao teatro ou mesmo comprar discos é considerado
ainda um luxo sulamericano para a maior parte dos habitantes,
a televisão adquire um enorme significado, reinando sozinha
em 98,3% das cidades.
Segundo
dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) que realizou pesquisas relacionadas ao perfil dos municípios,
revelou-se que em um total de 5.500 cidades pesquisadas 25% não
tinham biblioteca, 84% dos municípios não possuem
museu, 69% possuem apenas uma biblioteca, 86% não tem teatro
e só 35% das cidades possuem livraria. As rádios
AM estão em 20% e as FM em 34% dos municípios, a
internet em 15% e a TV a cabo amarga 7% de cobertura.
Diante
desse quadro a grande massa de brasileiros cai na frequência
da televisão aberta, e baseiam-se nas informações
obtidas através do contato com as culturas de massa, caracterizada
pelo bombardeio de imagens e a formação de opiniões
de natureza dominante.
Os
resultados mediante a programação imposta pela mídia
atual, não remetem a idéia de um questionamento
por parte do público, onde se possa ter uma ampla visão
da produção artística e condenar ou substituir
os recursos.
A
programação (salvo algumas exceções)
é antípoda ao enriquecimento cultural e se mostra
incapaz de nutrir a necessidade de consumo artístico da
população, disseminando algumas formas de alienação,
visto o baixo nível dos programas. As locadoras possuem
maior frequência do que as livrarias e lojas de discos e
estão presentes em 70% dos municípios com mais de
10 mil habitantes, onde geralmente os campeões da locação
são os conhecidos machões de Holywood, distribuindo
tiros e pontapés gratuitos isso sem falar naquele final
clássico em que ele fatura a atriz principal.
Com
exeção das TVs educativas, que trabalham exclusivamente
no conceito de televisão cultural, hoje não resta
nada de cultural na TV aberta, que na luta por altos índices
de audiência caracterizam-se pelo alto teor de banalidade
e ultrapassam a muito os limites de relevância dos telespectadores
de pretensões elevadas no que diz respeito a hábitos
seletivos.
O
problema básico estaria na incompatibilidade entre o público
que tem acesso à cultura de elite e o público guiado
pela cultura massificada da televisão, que em extremos
opostos remete o mercado televisivo, onde 90% das emissoras do
país são privadas, ao interesse do maior quantitativo
de telespectadores levando em conta os resultados das pesquisas
de opinião na mídia.É evidente que sendo
uma empresa particular, geralmente formada por sociedades comerciais,
tem como prática o comércio comum e como fim o lucro.
Sobre
esse aspecto haveria antes de ser concebida uma frequência,
determinar-se a participação obrigatória
de programações de nível cultural amplo,
e esta ser cadenciada por orgão moderador competente indicado
pelo Ministério da Cultura.
Quero
deixar claro que não vejo brasileira como uma instituição
isolada do sistema social, o que vejo, é a necessidade
de se impor regras, normas e restrições no que se
refere a qualidade da programação das emissoras,
e que seja discutido uma ligação condicinada e dirigida
da cultura em que se possam atingir os valores e costumes de todas
as classes. É fato que o poder político em época
de interesses eleitorais interfere direta e determinantemente
para atuar no campo televisivo, com poder para impor sua programação
ao público. Porque não o faz também em prol
dos interesses culturais ou das normas de comportamento social?
Se é que podemos definir tais valores, visto que há
um condicionamento ligado a vários fatores.
A
televisão tem o monopólio da influência e
se esquece de que do outro lado existe um telespectador que é
parte do sistema econômico, social e político do
país e tem premência em desenvolver-se intelectualmente.
Então, não se trata de dar aquilo que o povo quer
e sim refletir que a audiência vem daquela grande maioria
que sequer tem condições de comprar um livro, um
jornal, e acredita que está consumindo algo de qualidade.
É possível alcançar uma programação
qualitativa, seja ela cultural, informativa ou de qualquer natureza,
basta o questionamento das pessoas, dos empresários e governo,
atentando à valorização de sua produção
e do público alvo, que vive o triste paradigma de baixo
nível sócio-cultural.
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