Palavreiros no Portal da UNESCO
(World Poetry Directory)
Este site tem a honra de ter sido incluído 
no portal da UNESCO 
em 21 de Novembro de 2001.

 

                  Cultura na TV

                                Márcio Coutinho

                  Considerando a situação de carência cultural e a escassez de equipamentos para a atuação das artes junto às comunidades, o Brasil vive um momento de empobrecimento de programações culturais.

                  Os produtores culturais queixam-se da falta de espaços adequados e da falta de público para prestigiar as atrações; o Ministério da Cultura diz que existe uma demanda por projetos que possibilitem a criação de eventos que façam nascer uma agenda permanente. Outros culpam a falta de interesse de empresários em apoiar projetos, já que a verba para tais investimentos é inviável.

                  Em meio a este retrato onde ninguém tem coragem de refletir radicalmente sobre a situação da cultura, e muito menos tomar medidas construtivas, estão o artista e o povo. O artista fomenta a idéia de encontrar o público e colocá-lo diante de seu trabalho, já o povo, a grande massa, está cada vez mais imersa no baixo nível de leitura, distanciando-se da arte e direcionando seu lazer cultural na televisão, na videolocadora e video-games.

                  Num país onde é marcante o desinteresse pela cultura, onde uma ida ao teatro ou mesmo comprar discos é considerado ainda um luxo sulamericano para a maior parte dos habitantes, a televisão adquire um enorme significado, reinando sozinha em 98,3% das cidades.

                  Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que realizou pesquisas relacionadas ao perfil dos municípios, revelou-se que em um total de 5.500 cidades pesquisadas 25% não tinham biblioteca, 84% dos municípios não possuem museu, 69% possuem apenas uma biblioteca, 86% não tem teatro e só 35% das cidades possuem livraria. As rádios AM estão em 20% e as FM em 34% dos municípios, a internet em 15% e a TV a cabo amarga 7% de cobertura.

                  Diante desse quadro a grande massa de brasileiros cai na frequência da televisão aberta, e baseiam-se nas informações obtidas através do contato com as culturas de massa, caracterizada pelo bombardeio de imagens e a formação de opiniões de natureza dominante.

                  Os resultados mediante a programação imposta pela mídia atual, não remetem a idéia de um questionamento por parte do público, onde se possa ter uma ampla visão da produção artística e condenar ou substituir os recursos.

                  A programação (salvo algumas exceções) é antípoda ao enriquecimento cultural e se mostra incapaz de nutrir a necessidade de consumo artístico da população, disseminando algumas formas de alienação, visto o baixo nível dos programas. As locadoras possuem maior frequência do que as livrarias e lojas de discos e estão presentes em 70% dos municípios com mais de 10 mil habitantes, onde geralmente os campeões da locação são os conhecidos machões de Holywood, distribuindo tiros e pontapés gratuitos isso sem falar naquele final clássico em que ele fatura a atriz principal.

                  Com exeção das TVs educativas, que trabalham exclusivamente no conceito de televisão cultural, hoje não resta nada de cultural na TV aberta, que na luta por altos índices de audiência caracterizam-se pelo alto teor de banalidade e ultrapassam a muito os limites de relevância dos telespectadores de pretensões elevadas no que diz respeito a hábitos seletivos.

                  O problema básico estaria na incompatibilidade entre o público que tem acesso à cultura de elite e o público guiado pela cultura massificada da televisão, que em extremos opostos remete o mercado televisivo, onde 90% das emissoras do país são privadas, ao interesse do maior quantitativo de telespectadores levando em conta os resultados das pesquisas de opinião na mídia.É evidente que sendo uma empresa particular, geralmente formada por sociedades comerciais, tem como prática o comércio comum e como fim o lucro.

                  Sobre esse aspecto haveria antes de ser concebida uma frequência, determinar-se a participação obrigatória de programações de nível cultural amplo, e esta ser cadenciada por orgão moderador competente indicado pelo Ministério da Cultura.

                  Quero deixar claro que não vejo brasileira como uma instituição isolada do sistema social, o que vejo, é a necessidade de se impor regras, normas e restrições no que se refere a qualidade da programação das emissoras, e que seja discutido uma ligação condicinada e dirigida da cultura em que se possam atingir os valores e costumes de todas as classes. É fato que o poder político em época de interesses eleitorais interfere direta e determinantemente para atuar no campo televisivo, com poder para impor sua programação ao público. Porque não o faz também em prol dos interesses culturais ou das normas de comportamento social? Se é que podemos definir tais valores, visto que há um condicionamento ligado a vários fatores.

                  A televisão tem o monopólio da influência e se esquece de que do outro lado existe um telespectador que é parte do sistema econômico, social e político do país e tem premência em desenvolver-se intelectualmente. Então, não se trata de dar aquilo que o povo quer e sim refletir que a audiência vem daquela grande maioria que sequer tem condições de comprar um livro, um jornal, e acredita que está consumindo algo de qualidade. É possível alcançar uma programação qualitativa, seja ela cultural, informativa ou de qualquer natureza, basta o questionamento das pessoas, dos empresários e governo, atentando à valorização de sua produção e do público alvo, que vive o triste paradigma de baixo nível sócio-cultural.

Márcio Coutinho
Nasceu em 1971, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Poeta e ensaísta, ajudou a fundar o grupo SPN (Sociedade dos Poetas Novos). Atualmente executa atividade cultural na editoria da Revista SPN, na organização do evento Fábrica de Palavras, apresentando seus textos em jornais, revistas, fanzines culturais, sites de literatura, antologias de poesia, concursos literários, declamações em saraus e eventos.


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