Palavreiros no Portal da UNESCO
(World Poetry Directory)
Este site tem a honra de ter sido incluído 
no portal da UNESCO 
em 21 de Novembro de 2001.

 

                  O papel da arte na sociedade

                                Márcio Coutinho

                  Basta olhar para a realidade à nossa frente e temos que convir que o homem se reduz a um objeto fechado, limitado a vínculos e influências que quase sempre consistem em alcançar o prático, o objetivo, transformando culturas, costumes e relações em atividades meramente lucrativas e dominantes.

                  Toda essa realidade coloca o homem e suas possibilidades em uma condição de incapacidade para perceber emoções, conceitos estéticos e sentimentos provenientes de nossas relações com o cotidiano e com a natureza física e sobrenatural a que estamos sujeitos, bloqueando a capacidade de organização criativa e o desenvolvimento de experiências influenciadas pela realidade.

                  Boa parte das relações sociais são estruturadas em conceitos complementares e invariáveis sem que sejam questionados ou analisados seus aspectos contrastantes, se limitando a valores absolutos e formatos do mundo contemporâneo, sempre preocupado com seus problemas modernos sem solução onde as relações humanas apresentam-se de maneira extremamente fechadas.

                  Tais conceitos incrustados no imaginário popular agem como um teatro de um sistema cultural e social em que vem à tona um mínimo de material criativo e apagam-se lembranças e memórias que viriam a constituir um novo presente de idéias construtivas. Esse ato de dominar a realidade e estabelecer atitudes de formação ideológica e cultural cria uma distância entre objeto e arte, impedindo a visão subjetiva do estético, do belo e sepultando o grande motivo da arte, que é o sentimento e a reflexão, aliados a técnica.

                  Encontramo-nos num momento perigoso e real onde há um movimento de alteração e transformação de valores de ordem artística, social e política onde a questão primordial é a degradação, o domínio cego do homem e de suas emoções sob justificativas sem nenhuma definição, lógica ou sentido, beirando o irracional. E a quem atribuímos tal desagravo? Aos governantes, meios de comunicação, família ou talvez o universo globalizado? Tais instituições e circunstâncias não manifestariam atitudes degradativas se não pelas teorias defeituosas de pessoas sem qualquer respeito pela cultura e seus valores emocionais, preocupadas apenas com seus valores autônomos e de consumo.

                  O desenvolvimento da tecnologia eletrônica invadiu nosso cotidiano com uma gama de informações muito grande e diversificada, porém, não sabemos disponibilizar isso de forma homogênea e ordenada, então nos atiramos a velocidade e a massificação imposta pela modernidade, tornando-nos a cada dia mais seduzidos e escravizados pelo ambiente industrializado da mídia e do marketing que torna a linguagem ou qualquer coisa que projetem na sociedade um mero objeto de consumo. A tecnologia não é o centro do processo cultural e artístico, mas sim o veículo que deveria direcionar e estimular com uma postura crítica e criativa a curiosidade do homem.

                  A arte e o passado cultural se vêem fadados ao colapso para dar lugar a uma cultura de consumo que não enxerga o abismo a seus pés e cada vez mais se afasta da emoção e da criatividade mergulhando na fantasia vertiginosa imposta pelos sistemas social, econômico e cultural deteriorando os valores do ser humano por propósitos meramente financeiros, dominadores e destrutivos.

                  Essas são questões em que faz-se necessário repensar e questionar as circunstâncias com que são abordados os diversos modos de realidade, o consumo humano e a liberdade para a reflexão, associando as práticas cotidianas ao processo de desenvolvimento e humanização da cultura. Desta forma cabe a sociedade num todo, mobilizar ações que venham a criar consciência e valorização aos propósitos artísticos de real substâncias e conteúdo, respeitando os limites da postura e do procedimento do valor cultural, valendo-se para isso da memória histórica da arte.

                  Os artistas de um modo geral, embora permaneçam assustados diante das expressivas ferramentas do sistema massificado, sabem que é notória a destruição das bases do processo criativo e que é preciso encontrar soluções que viabilizem a revolução da arte nos vários campos de atividade humana.

Márcio Coutinho
Nasceu em 1971, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Poeta e ensaísta, ajudou a fundar o grupo SPN (Sociedade dos Poetas Novos). Atualmente executa atividade cultural na editoria da Revista SPN, na organização do evento Fábrica de Palavras, apresentando seus textos em jornais, revistas, fanzines culturais, sites de literatura, antologias de poesia, concursos literários, declamações em saraus e eventos.


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