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O
papel da arte na sociedade
Márcio
Coutinho
Basta
olhar para a realidade à nossa frente e temos que convir
que o homem se reduz a um objeto fechado, limitado a vínculos
e influências que quase sempre consistem em alcançar
o prático, o objetivo, transformando culturas, costumes
e relações em atividades meramente lucrativas e
dominantes.
Toda
essa realidade coloca o homem e suas possibilidades em uma condição
de incapacidade para perceber emoções, conceitos
estéticos e sentimentos provenientes de nossas relações
com o cotidiano e com a natureza física e sobrenatural
a que estamos sujeitos, bloqueando a capacidade de organização
criativa e o desenvolvimento de experiências influenciadas
pela realidade.
Boa
parte das relações sociais são estruturadas
em conceitos complementares e invariáveis sem que sejam
questionados ou analisados seus aspectos contrastantes, se limitando
a valores absolutos e formatos do mundo contemporâneo, sempre
preocupado com seus problemas modernos sem solução
onde as relações humanas apresentam-se de maneira
extremamente fechadas.
Tais
conceitos incrustados no imaginário popular agem como um
teatro de um sistema cultural e social em que vem à tona
um mínimo de material criativo e apagam-se lembranças
e memórias que viriam a constituir um novo presente de
idéias construtivas. Esse ato de dominar a realidade e
estabelecer atitudes de formação ideológica
e cultural cria uma distância entre objeto e arte, impedindo
a visão subjetiva do estético, do belo e sepultando
o grande motivo da arte, que é o sentimento e a reflexão,
aliados a técnica.
Encontramo-nos
num momento perigoso e real onde há um movimento de alteração
e transformação de valores de ordem artística,
social e política onde a questão primordial é
a degradação, o domínio cego do homem e de
suas emoções sob justificativas sem nenhuma definição,
lógica ou sentido, beirando o irracional. E a quem atribuímos
tal desagravo? Aos governantes, meios de comunicação,
família ou talvez o universo globalizado? Tais instituições
e circunstâncias não manifestariam atitudes degradativas
se não pelas teorias defeituosas de pessoas sem qualquer
respeito pela cultura e seus valores emocionais, preocupadas apenas
com seus valores autônomos e de consumo.
O
desenvolvimento da tecnologia eletrônica invadiu nosso cotidiano
com uma gama de informações muito grande e diversificada,
porém, não sabemos disponibilizar isso de forma
homogênea e ordenada, então nos atiramos a velocidade
e a massificação imposta pela modernidade, tornando-nos
a cada dia mais seduzidos e escravizados pelo ambiente industrializado
da mídia e do marketing que torna a linguagem ou qualquer
coisa que projetem na sociedade um mero objeto de consumo. A tecnologia
não é o centro do processo cultural e artístico,
mas sim o veículo que deveria direcionar e estimular com
uma postura crítica e criativa a curiosidade do homem.
A
arte e o passado cultural se vêem fadados ao colapso para
dar lugar a uma cultura de consumo que não enxerga o abismo
a seus pés e cada vez mais se afasta da emoção
e da criatividade mergulhando na fantasia vertiginosa imposta
pelos sistemas social, econômico e cultural deteriorando
os valores do ser humano por propósitos meramente financeiros,
dominadores e destrutivos.
Essas
são questões em que faz-se necessário repensar
e questionar as circunstâncias com que são abordados
os diversos modos de realidade, o consumo humano e a liberdade
para a reflexão, associando as práticas cotidianas
ao processo de desenvolvimento e humanização da
cultura. Desta forma cabe a sociedade num todo, mobilizar ações
que venham a criar consciência e valorização
aos propósitos artísticos de real substâncias
e conteúdo, respeitando os limites da postura e do procedimento
do valor cultural, valendo-se para isso da memória histórica
da arte.
Os
artistas de um modo geral, embora permaneçam assustados
diante das expressivas ferramentas do sistema massificado, sabem
que é notória a destruição das bases
do processo criativo e que é preciso encontrar soluções
que viabilizem a revolução da arte nos vários
campos de atividade humana.
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