EDSON AQUINO
é libriano de 1964. Golpe, desenhos, HQ, 1974:
HQ, teatro, ditadura, histórias. Dramaturgo,
diretor de teatro e fundador do Grupo Arruaça;
escultor, bruxo, tarólogo, libriano. Tem obras
- poética e prosa - publicadas em antologias
do ABC. Participou da montagem poético-teatral
Saturnais, em 1999. É membro do Conselho Editorial
do Grupo Palavreiros de Diadema.
Canção de
Ninar
Edson
Aquino
Eu
me recordo das crianças e não compreendo
o porquê delas terem partido... Foram-se numa
bruma misteriosa: enterradas, afogadas e incineradas.
Consumidas por chamas azuis e vermelhas jogadas em
penhascos abissais, tragadas por mar revolto.
Pequenas bocas costuradas, olhinhos vazados, dentes
de leite vendidos em feiras de artesanato feito brincos,
colares e anéis, suas peles lisas, alvas, ornavam
presentes de aniversário.
Banhavam-se em chafarizes: frágeis, famintas,
solitárias, violentas, com marcas no corpo
e alma. Gritavam por ajuda num choro? Apelo infantil.
Pipas no ar, doce vagabundo no farol, jogando bola,
rodando pião, cheirando cola, arma na mão,
bandido e mocinho, prostituição, figurinha
carimbada, boneca sem cabeça.
Brincavam nos parques, viadutos e avenidas. Possuíam
suas ilhas, matas e praias. Roubavam goiabas das árvores,
além de dinheiro, relógios e vidas.
Moravam em castelos, mansões, favelas e reformatórios.
Não conheciam Peter Pan, Tom Sawyer e Emília.
Conheci crianças que queriam nuvens de algodão
doce, montanhas de sorvete, florestas de balas, doces
e pirulitos e cachoeiras de refrigerantes.
Elas amavam a fantasia, nada de realidade. Nada de
fome, frio, medo, dor, estupidez, ignorância,
indiferença, violência e morte.
A palavra de ordem era diversão. Respirar alegria
e sorrir realmente como criança. Um sorriso
simples e único.
Planeta de isopor, cavalo de pau, berço com
grades e cadeados.
Conte uma história antes de dormir. Cante uma
cantiga de ninar. Deixe que te apertem as bochechas
antes que cresça, antes que esqueça.
Minha idade está nos dedinhos.
Antologia
"Tempos Perplexos" realização
do Departamento de Cultura de Diadema.
Concepção, seleção, organização:
Beth Brait Alvim
Hora 'H' Hoje
Edson
Aquino
eu quero a bomba atômica!
e
que stalin grite ao mundo sua palavra de ordem
expondo o rabo da majestosa união soviética
em plena manhã de um dia ensolarado da sibéria
onde o sonhador viciado dostoiévski
jogue dados sobre o corpo de maiacóvski
sob as barbas de tólstoi aos pés do
czar
em amor à grande mãe rússia
que um dia quis devorar as crianças do mundo.
eu
quero a bomba atômica!
e que a américa impeça finalmente o
tiro que matou
a águia, os cowboys, os apaches, os vietnamitas,
os japoneses e latinos...
destrua oh gloriosa américa tudo o que é
contra o 'way of life' o sonho americano
tudo que não cheire a americano
tudo que não ame americano
e marilyn monroe exiba a estes animais insanos uma
boceta hollywodiana limpa. cromada.
gosto de hambúrguer e fritas.
eu
quero a bomba atômica exposta nas praças
públicas do mundo.
não aquelas esquecidas, infestadas de gatos
sujos, ratos no cio, cães leprosos e pombas
pestilentas.
nada de merda, meus amigos...
tudo tem de ser majestoso: coreto bem ornado e banda
sinfônica!
eu quero a bomba atômica...
abençoada pelo papa
iluminada
por maomé
incensada por buda
bem-aventurada por jesus cristo
concedida por deus todo-poderoso.
eu quero a bomba atômica!
e que nenhuma dúvida paire nas mentes destes
seres divinos adoradores da evolução
humana
dos prodígios do homem da paixão da
razão e compaixão humanas
e que a humanidade pense:
jamais um ser dito humano foi digno de sê-lo
eu
quero a bomba atômica!
quero a vaidade a mentira a utopia o sono a cegueira
a surdez a doença
a imagem a desavença a lucidez a boca fechada
o corpo perfeito
a febre a fera as crianças os monstros as divas
as sombras as ondas
as chagas os mortos os corpos
cuspe e sangue muito sangue
fome
muita fome
sede
muita sede
e sexo muito sexo
e sanidade nenhuma.
eu quero a bomba atômica!
admirar meu último momento
vislumbrar o doce cogumelo brotando das entranhas
da terra
irradiando tudo
mas tudo aquilo
que temos de melhor.
Antologia
"Tempos Perplexos" realização
do Departamento de Cultura de Diadema.
Concepção, seleção, organização:
Beth Brait Alvim
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