Antonio Miranda
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A foto oxidada
1. Longe de mim
comigo mesmo.
Vejo-me outro
- tal qual fui
numa fotografia
oxidada:
- vestígios de mim
irreconhecíveis
irreconciliáveis.
Não sou eu
aquele jovem gazela
sobre a bicicleta
mergulhando no mar
atirando-se no abismo.
Ou fui, se é que fui.
Do distanciamento
da paisagem e do tempo
o desvendamento impossível:
pouco resta do que fui
nesta arqueologia do ser.
2. Se fui, já não
sou
- mas aí está a foto
inclemente
acusando-me
por comparação.
E que terrível
é ver-se outro:
verso e reverso.
Sim, o tempo oxida
a foto
e a pessoa
sem clemência.
Não me julgo, nem
me entendo.
Aquele jovem
de olhar indagativo
- ele tinha as respostas
que eu não mais
tenho.
3. Impossível revê-lo
sem julgá-lo
ou condená-lo.
O corpo é que
faz o julgamento.
Como forças divisórias
como pesos e
medidas
de variada bitola.
Aquele menino da foto
não mais existe
- existo eu
que o contradigo.
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Borges
Para
Elga Perez de Laborde
I
No labirinto dos espelhos
por caminhos multiplicados
ao infinito; lá no fundo
ou no começo.
Onde o tempo e o espaço
se confundem, porque
coexistem memórias
do olvido.
Em território ampliado
extensivo, além dos planos
e altiplanos sucessivos,
transformados.
Paisagens mutantes, antes
miragens, talvez passagens
ou descaminhos entre tudo
e o nada absoluto.
Lá está aquela máscara
disforme
que encobre uma outra face
que oculta outras tantas mais:
metamorfoses.
Desvendamentos, desvelamentos.
Excertos, estratos, desconcertos.
Um ser que não mais existe,
nunca mais.
Ou que existe em transição.
Um ser de superfícies, camadas
numa couraça de resistências
impossíveis.
II
Um ser em que não me reconheço
que em sendo deixa de existir
que não tem começo e nem
princípio(s).
Um ser em precipício, levitando
sobre os espaços e os tempos
de um esclarecimento - o sentimento
do universo.
Num território de realidades
que seriam transfigurações
encontro Borges, onírico, flutuando
entre as palavras.
Ou pelos sentidos, pressentimentos
pairando sobre mitos e ruínas
latentes, no sentido dos sonhos
consentidos.
Referências, transparências,
transcendências. Sonhos sonhados
ou ruminados, ou imaginados,
essências.
Borges confessa: a realidade
não interessa; sua visão
perpassa as tessituras
do fabulário.
Na ceguidade iluminada
- origem e devenir das formas -
ele me vê bem além de mim,
ele se vê.
Eu não consigo vê-lo,
apenas
me aproximo de sua substância
de símbolos e de significados
- se isso é possível.
Ele dialoga com os mortos
e enxerga além das evidências
e, negando a própria existência,
nos descobre.
Pois é de descobertas e dessassombros
que construímos nossos espelhos
no labirinto infinito e imperfeito
das revelações.
Como Dante e seu Poeta preferido
indo aos epicentros da condição
humana, às suas projeções
e representações.
Com Borges, o mago, o vidente
um pré-socrático, um demiurgo
um transgressor por via dos questionamentos.
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Calvino Ítalo
Para
Elmira Simeão
I
Um cavaleiro sem rosto
vaga por cenários e tempos
fracionários;
uma cidade invisível
emerge das brumas
do impossível:
libertos da arcana
maldição do indizível.
São exércitos errantes,
bibliotecas
ilegíveis, são cidadelas
herméticas, espectrais,
são animais, são muralhas
indevassáveis, em idades
indefinidas, códigos
indecifráveis mas, ainda
assim, inteligíveis.
II
Calvino faz exercícios de
memória
em lugares que já não são lugares
- são denominações registros ecos..
Desvenda sentidos, vislumbra,
presume, em estado de catálogo
- devaneios, provendo combinações
múltiplas absurdas fantasmais -
fluindo como fantasias verbais.
Palavras tais como esgrouviado
na superfície do papel fluído
passível de toda inscrição.
Nomeando o mundo, inventando
palavras e mundos, escrevinhando
compulsivamente, desinteressado
dos comos e porquês: palavras
para inscrever todas as coisas.
Palavras no mundo, horizontais,
dando forma ao próprio mundo
para que assim o mundo exista.
E confessa: difícil é contar
na primeira pessoa, confessar-se
sem deturpar os significados,
sem falsear, tergiversar,
viver os próprios sonhos e ilusões.
III
Uma felicidade inquieta,
uma alegria externa
aos próprios sentimentos,
querendo sempre estar
em outro lugar e momento,
pelas vertigens do pensamento,
indiferente à natureza porque
confessadamente citadino.
Oh! Calvino, expectador viciado
dos cinemas da adolescência,
das marchas e bravatas fascistas,
revoltado, como Fellini, indagando
e maldizendo e blasfemando
contra as instituições totalitárias,
desconfiando de todas as certezas
abjudicando toda burocracia.
Filme da infância imaginária
visto a partir do meio,
seguido da metade do segundo,
completado pela fração do terceiro,
cenas de várias seqüências,
diferentes cenários incompletos
num quebra-cabeça ou colagem
ou caleidoscópio fantástico!
Filmes que evocam filmes,
personagens migrando de enredo
para enredo, cenas alternadas,
entrecortadas de memórias
de outros filmes já esquecidos
numa mitologia antropofágica
e voraz, numa galeria de personagens
desprovidos de sentidos.
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Meu nome
I
Antonio, menino, vamos conversar:
por que foges do castigo, se ele vai te alcançar?
Prá
que tanta rebeldia, socando ponta de faca?
Aonde te
levam estas pernas de caminhar
tantas fugas, recusas, tanto ensimesmar?
Antonio,
menino, por que blasfemas?
Que te leva
ao prazer do sofrimento
ao pensamento avesso ou travesso
a contradizer o sim e a reiterar sempre o não?
De onde vêm
estas idéias de suicídio
enquanto amas saturado e satisfeito?
II
Tantas páginas escreves! Tantas leituras
apressadas, tanta angústia de ser
tantas perguntas impossíveis, desejos
sonhos absurdos, planos inconseqüentes!
Que amigos
são esses que não voltarás a encontrar?
Que lugares tu buscas que deixarão de existir?
Que amores te queimam que se vão dissipar?
Que idéias te movem que logo vais superar?
Acaso essa
birra vale o que a motiva?
III
Frente a frente, somos dois desconhecidos
que se negam, contradizem, se acusam.
Espelho maldito
a revelar o nosso estranhamento.
Não
me acuses do que não fostes capaz!
Nada sou daquilo que pretendias ser!
Nunca fui
amado tanto quanto querias!
Nem amei tanto quanto querias que eu amasse...
IV
Antonio, por favor, reconheça o teu fracasso
e deixa espaço para eu existir
sem ter que justificar-me diante de ti!
Deixa eu
ser feliz no meu conformismo
- de achar que tenho o que mereço
enquanto tu deliras e deliras!
Por que estragas
o meu sossego tão frágil
azedas a minha felicidade tão precária?
A partir
de hoje o meu nome é Outro.
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O inferno
1.O Paraíso não existe mas o Inferno sim:
o Céu apenas por intervalos,
momentos, intermitente.
O Inferno é permanente, denso,
saturado, onipresente.
Deus, furioso, repartiu o Bem
em migalhas mas o desgosto
é copioso.
Campo da não dialética,
vácuo de toda ideologia.
O Inferno de Dante tem sete círculos
talvez esféricos, metafóricos
- não! É concreto, verdadeiro,
em sua medievalidade iconográfica.
E tem uma Ética aristotélica.
Se o Céu existe é
para o privilégio
dos aborrecidos, não-viventes,
soberbos da fé, aduladores
enquanto os demais que
bestemmian quivi la virtù divina
(dantesca) ardem no fogo eterno
e terreno.
L´angoscia
della genti
desterrada, condenada, aviltada
desde o pecado original.
No Poema, corporificado um mundo
exemplar, presentificado, pontificado;
o Bem se revela pelo Mal infindo,
na fogueira sempiterna: temor e horror.
2. A Jerusalém celeste pode
estar embaixo,
na orla marítima e nas ilhas do Pacífico;
o Inferno sobe o morro, encabrita-se.
O mundo dos mortos domina,
controla, assusta o mundo.
O Inferno existe, o Céu é
rarefeito:
é e não é. É ideal, utópico,
inacessível,
instável: do Inferno não há regresso,
no Céu o ingresso é probatório
- ou é o Purgatório.
E o futuro, o que é?
O ainda não, o talvez não
ou - espécie de oratório, ou oráculo
-
a resposta: o nunca, ou jamais.
O Paraíso é um não-lugar,
pretendendo ser virtuoso nem é virtual;
em seu lugar, o Mal é incestuoso,
só o Inferno é real.
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Antonio Miranda - poeta brasileiro, nascido no
Maranhão, em 1940 e residente em Brasília, Brasil.
Tem aproximadamente 20 livros publicados, nos últimos quarenta
anos, sendo alguns títulos originalmente escritos em espanhol.
cmiranda@unb.br
Livros principais de Poesia:
TU PAÍS ESTÁ FELIZ ; 1a. edição
em Caracas, Venezuela, em 1971; 10a. edição em Brasília,
2002.
BRASIL, BRASIS. Brasília,
2000.
CANTO BRASÍLIA, Brasília 2002.
PERVERSOS. Brasília, 2003
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