Portugal

Na morte de Pablo Neruda
                                         José António Gonçalves



morreste Neruda. ninguém mais tem os dedos no coração, medindo
o pulsar do amor. os teus versos vão-se desfazendo nos olhos
dos abutres, enquanto as palavras criam raízes nas folhas brancas
que deixaste apodrecer. são poemas de ouro ofuscando os dias
com o seu brilho. e tu gritaste com a tua voz a força da vida e viste-a fugir
nas células moribundas. ah! Neruda, ninguém soube que a tua carne
é que devorará a madeira do teu último leito. ninguém soube,
porque todos morreram contigo ao morreres, meu poeta sem fim.

23.9.73
(in "À Espera dos Deuses",
Ed. Correio da Madeira, 1999)



Proposta de encantamento
para uma definição de arquitecto

                                         José António Gonçalves



1

o arquitecto é um ser que caminha sobre a espuma
das paisagens
e vive encantado pelas sombras que sobrevivem à flor da relva
exactamente
no lugar onde as outras pessoas nunca passam

2

perguntam os mestres no cruzamento das traves onde
descansa o arquitecto curiosamente maravilhados pelo silêncio
que se desprende das paredes
consumindo a casa a partir do traço exacto
que descai do tecto em direcção ao corpo
da terra

3

é o arquitecto quem acorda o adormecimento do horizonte
sempre que alcança o nevoeiro e o distrai numa janela
violentamente transparente
como se abrisse uma passagem secreta para o universo
das palavras simples
guiado pelo esplendor dos poentes em decomposição perene
na alma
dos invisíveis habitantes do mármore branco

4

é uma planície vasta e preguiçosamente estendida
nos recantos da mobília espalhada pelos inimagináveis
espaços
do gesto amado
da mão do arquitecto:

onde há uma pedra pinta uma árvore
e na serenidade do riacho desperta uma ponte sempre
buscando o outro lado da aventura do homem comum
como se não houvesse mais fronteiras nem sentimentos
diferentes
da esperança que alimenta o aparo
e conduz em quilometragem só aproximada à vertiginosa
viagem do amor
o milagre do desencadear uma paixão eterna
pelo casulo onde se mora
prisioneiro de um deslumbramento absolutamente
quotidiano e desprovido de segredos

5

eis o arquitecto debruçado sobre a mesa com a aflição
dos guerreiros
antes de receberem a benção do sangue nos campos de batalha
e algo nos seus dedos fala de magias ou de constelações
estradas telhados portas muros contrastes luz interrupções
e de repente pensa em oceanos amantíssimos
à superfície dos barcos

6

o arquitecto é efectivamente
um arquitecto
mas podia ser o vento incansável que veste as montanhas no outono
e domina as cores do zénite a cinza
que despe o constrangimento inconsciente dos homens

7

o arquitecto é o abismo que atormenta o sonho

(in "Bar Cheirando a Rosas", prefácio de Ernesto Rodrigues,
Ilha 4, Câmara Municipal do Funchal, 1994; "Os Pássaros Breves",
Editorial "Átrio", posfácio de João Rui de Sousa, 1995;
"Poeti Contemporanei dell'Isola di Madera", ed. bilingue,
org. e trad. Giampaolo Tonini, Centro Internazionale della Grafica
di Venezia", 2001;"Paz Russa", Moscovo, trad. em russo,1997)


Balada para Vénus
                                         José António Gonçalves



é tão cedo ainda e queria abraçar-te
deixando o tempo estático no contacto
dos corpos em repouso

ouço o rumorejar das ondas
de onde surges branca como uma nuvem
esculpida em marfim
disfarçada aos olhos dos homens
com a cor cansada da terra

vulcano sonha um sonho azul
igual ao dormir de todos os deuses
com as mãos de afrodite o seu pescoço
a formosura dos seios trémulos
encurvados como um rio de lava quente
a caminho do umbigo estremecido
na sua função de guarda da fronteira
onde se escondem os mais belos segredos

o amor encantou eneias e as muralhas romanas
roubando-me o lugar o sol iluminando
as pedras as aras as colunas os templos
os lábios que soletram rezas
a magia do teu nome aos ventos

o teu manto hoje é de madeira e esvoaça
como raiz esticando-se em direcção ao céu
desprendida de uma árvore com rosto de mãe

se tivesses braços afrodite vénus deusa
o teu abraço seria meu


(inédito)



Biografia (breve)
José António Gonçalves nasceu na cidade do Funchal (Madeira, Portugal), a 13 de Junho de 1954. Jornalista profissional, escreve para a imprensa, rádio, televisão e documentários cinematográficos. Preside à Associação de Escritores da Madeira e é membro directivo da Associação Portuguesa de Escritores. Com mais de duas dezenas de obras publicadas (entre títulos individuais e antologias), dirige várias colecções literárias enquanto editor. Revelou-se em 1973 com "Réstea de Qualquer Coisa" (crónicas poéticas) e, em 2002, publicou "Memórias da Casa de Pedra" (poesia) e "O Sol na Gaveta" (narrativa biográfica). Recebeu por duas vezes o Galardão de Mérito da Cultura e da Literatura da Região Autónoma da Madeira (1989 e 1994), entre outros prémios e distinções. Está integrado em diversas colectâneas e traduzido em diferentes línguas.

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