Portugal

a reinvenção da memória
                                       José Félix

 

tenho uma casa e um parapeito de flores.
uma casa a beijar o mar. o mar a beijar a casa.
uma casa, o mar e os lábios com pirilampos de água
a dizerem coisas. e essas coisas enternecem-me.
uma ternura de melancolia incompreensível.
são palavras com sons de sol que se embrenham
na pele, nos ouvidos, no nariz, nos dedos
que pegam na caneta. e a caneta desliza
à velocidade da sombra para poder acompanhar
o aroma que vem da chuva. uma chuva limpa,
luzidia, musical. a música da natureza.
os fios de água, o som dos fios a caírem na terra.
a terra a abrir-se. pedaços de pedaços de terra
a ganharem formas de flores. milhares de flores
a abrirem-se no chão. bocados de terra
e de pétalas a saltarem para os lados como
o fogo de artifício.
do parapeito da minha casa o mundo estreita
e alarga na conveniência saudável
que eu tenho da caneta. ela é a consciência
da mão esquerda porque não escreve.
com a visibilidade da tinta vejo para lá
da esquina e dos muros e das árvores e das pessoas
e dos cães e de uma criança em choro. e para além do cemitério
de que só vejo as pontas dos ciprestes. só há ciprestes
nos cemitérios. há sempre ciprestes nos cemitérios
e jarros brancos. uma brancura agónica. sobre as campas.
a morte. a importância da morte. a morte
é importante porque dura mais que a vida.
que importância têm os jarros brancos?
é tudo mais silêncio que o silêncio.
é a contrição de um olhar largo, vasto, interior,
anterior à memória da escrita.

da janela, do parapeito da janela,
vejo um país de fogo. crepita o silêncio na fagulha
da labareda vermelha, no vento inoportuno.
afago a comodidade doméstica no bonsai
nas flores sem nome, nos cactos e nas violetas.
o interior da casa. o regresso do sonho.
a introspecção da escrita numa outra forma de ser
ou na mesma forma de ser, sendo diferente.
permanece a remanescência do aroma
dos ciprestes. a lembrança dos mortos. a lembrança dos vivos.
lembro os mortos mais do que os vivos e, talvez
seja por isso, dou mais importância aos mortos
precisamente porque dou mais importância aos vivos.
o parapeito de flores é a reescrita da linguagem
é o dentro e o fora, é a anulação da contradição,
o estar e o ser, a religião da palavra ausente
e da palavra criada no silêncio do desejo.
a unidade dispersa o pensamento.
e da janela reinvento a memória
tenho o futuro suspenso da janela para o mundo.
o hoje, o agora é a urgência sem o conhecimento
das primeiras causas e dos primeiros princípios.
a morte. o princípio e o fim de tudo o que é sopro.

não vês a sombra da luz que te persegue?

a sombra das árvores. a iluminação das plantas.
a inundação luminosa da sala. a profundidade dos objectos.
dão textura pictórica à reinvenção da memória.
    passas os dedos pela esquina dos móveis. antes da morte.
    passas os dedos pelas coisas. depois da morte.
uma flor morta não é uma flor morta.
a visão encantadora da palavra. a procura do rosto verbal.
a subversão do texto, da ideia, do reconhecimento dela.
os ciprestes. o cemitério. tens o número 5a.
um simples número que não diz do teu rosto,
das tuas mãos quando tocavam nas ferramentas,
dos dedos a acariciarem o lápis no desenho,
dos silêncios longos durante a refeição.
dos silêncios longos depois da refeição.
da posição secreta a escutar a música árabe no rádio velho.
só eu sei de ti. sinto as mãos no cabelo
quando os aliso, despreocupado, de um modo temporal.

do parapeito da janela com flores, cruzo a escrita,
a visão dupla da flor viva e morta
e, por um instante, percebo o aroma das pétalas
de rosas vermelhas caídas sobre a terra.

 


                      Esqueletos expuestus a los ojos,
                      de cualquiera que pasa y, en las ramas,
                      poco a poco muriendo, el nombre tuyo
                      António Cáceres

 

não é outono. a folha seca
entre páginas
deixada de propósito por um
certo nome      é a essência do poema.
a vida    porque ainda existe quem
a pôs ali
substancia o tronco    a árvore   o ramo
da folha decepada
está viva entre as palavras
anónima     com certo nome   a folha
de roseira que os olhos anunciam.


pois. é verdade amigos.
a morte é uma carícia a envelhecer-nos
o rosto e o resto do corpo.
rasga a pele na esquina de dezembro

e espreita fria. sobre ela tenho gestos de ternura
quando o silêncio bêbado de gin
procura na memória um sorriso
impossível na descrição do poema.

é a literatura a intrometer-se
na construção da escrita
e, se a morte é a penumbra na janela
onde um fio de sol brinca na gota

de água que segue o olhar de nada e tudo,
não é a morte que espera por mim
trago-a comigo até que a carga pese

e o fiel decline e cumpra assim a vida.

 


a natureza das coisas
                                       José Félix

 

o que farei depois daqueste abril findado assim ao fim
de tantas relações inusitadas com a natureza
das coisas. bebi chuvas na chegança dos primevos dias
no voo violado das primeiras andorinhas negras
na admiração dos ninhos percorridos pelos novos filhos
em ancestrais chilreios sincopados na sôfrega fome
de todos os inícios. ficarei permanecido servo
senhor de todas as verdades sábias tão zelosamente
concebidas em azul      iluminada luz de olhos acesos.
vou talvez dedicar-me à descoberta de outras lides bem
mais consentâneas com esta preguiça   apregoando o ócio
da palavra lavrada    a paciência da escrita manual.
desenho o pensamento como quem borda numa toalha
de enfeites ou folheia fontes    páginas de versos vivos.
vou abraçar a árvore   a voragem dos pássaros clara-
mente à procura de novos sentidos de lados tão simples
como as asas isómeras daquela borboleta azul
pousada na ramagem confundida de um abril liberto
de toda a criação que já deixou de ter a permanência.
tenho amigos. na generosidade pedida      no âmago
de uma conversa útil litográfica       pedras à beira
rio lançadas    são ausências sobre ausências e mais outra
as fustigadas pedras    peço um requiem cómico e bobo
encarcerado nas palavras bebo do meu próprio fel
rarefeito    aspereza na garganta delida nas grades
que    quem me dera    fossem inventadas ou simples reflexos
de sombras partilhadas na película de antigas luzes.
eu deixarei abril    a minha casa    nesta pátria rasa
porque antes a substância da nação    a ânsia convertida
de lonjura    um continente novo       o ovo onde vivo
todas as viagens nas margens amargas de certa mobília
a família trazida     a imigração do espaço transformado
no traço imperceptível a memória corrompida fácil
distância    contratempo entre dois pontos máximos e próximos
como riscos de luz no tocar leve de pálpebras sãs.
eu sei      serei ausente mas por quanto tempo mais ainda
só a erva dos muros verá o rumo a ser concedido
ao viajante de hábitos previstos     imprevistos códigos
de conduta de pura transgressão de engravidar a fala.
há pátrias em abril que não me querem e há meses mais
de uma vulgaridade compreensível que desapetece
a mátria quanto mais um pequenino território ponto
preciso num pequeno mapa ponto negro que se diga
eu sou daqui dali fiz tal viagem trouxe aromas frutos
desenhados no cérebro na pele na roupa nas mãos.
nu com a vestimenta que não serve para atravessar
de uma margem para outra margem vivo as minhas circunstâncias
num rio farto     perto mas restrito horto por que furto
uma nesga de azul a luz abril o alimento da água.
nem sei se farei versos de amar    mar    mulher feita de água
moldada na palavra acesa lume rubro que sedenta
apaga a sede cedo percebida na dose possível
das dádivas vividas divididas em toda a medida.
o que serei depois de abril    talvez um cais sem os navios
ou    talvez os navios sem um cais no erro dos mares míticos
lusíadas palavras navegando na folha das águas
de sal e sangue escritas nas espáduas dos remos       o rumo
circular da palavra nua nova no leme cativo
da viagem cativa interrompida por um simples verbo.
ah     um abril brilhante  com o pavio de todas as pedras
retenho-o no mês de maio à mão das giestas abertas
à cor da agonia à alegria no grito do gesto
novo da luz azul de abril vivida na luz mais luz lúcida
das flores de maio. um poema assim trazido no sopro
do vento adiado puro devaneio de um dia para outro
dia como se fosse um poemário transgredidamente fácil.
é por isso que é muito difícil encontrar a mari
consuelo com o nome de uma rosa. rosa no amazonas
e talvez só com um olhar distante se descubra uma
de entre as mais formosas a oriente na espanha adiante.
quixote e sancho sou em maio verde dulcineia feita
perfeita    sou cavalo alado    puro   persigo nas águas
os espelhos reflexos das palavras os peixes escamas
e todas estas letras tão iguais que são tão diferentes
no sentido do poema transgredido na desconstrução
das etimologias. bebo o leite nas primícias águas.
pouso o tempo na pedra da memória. encolho os ombros.
as teias encantadas das aranhas no tecto da sala
a suspensão da morte da picada certeira na seda
que envolve o corpo dado às carícias   ternas melodias
no transitório transe da poalha    mortalha de um sono
enquanto estamos vivos e não vemos a noite chegar.
divago o mês de maio no aguaceiro que molha a janela
e traça traços de mapas visíveis cidades doídas
encolhidas com membros decepados na sombra da morte
das várias mortes   polvorosas mortes feitas no dia útil
de muitas esperanças. dá-se mundo à boca da criança
com uma flor e uma arma em cada canto dos lábios soídos
ao sémen das palavras balbuciadas à sombra da mater
dolorosa parindo flores raras no jardim de hades.
enquanto abril fenece aquece maio. o ovo no cadinho
alquímico transmutação in tempore do breve instante.

 


 

José Nascimento Félix, nascido em Luanda, Angola, em 1946.
Licenciado em História pela F.C.S.H. da Universidade Nova de Lisboa.
Começa a escrever muito cedo mas dá a conhecer alguns dos seus trabalhos, tardiamente, em Luanda, através da Rádio Clube de Angola.
Criou na Rede uma página, Encontro de Escritas, que se dedica à divulgação da literatura feita em português e de poetas de língua portuguesa.
É sócio da Escola do Espectador, pela qual é convidado para palestras e debates em Escolas e Livrarias.
Tem, como complemento da página Encontro de Escritas, na Rede, uma lista de discussão e divulgação da poesia portuguesa. Ali há análise e crítica literária sobre os poemas e textos colocados à disposição de cerca de 170 associados, autores e/ou leitores.

Obra literária:
"Geografia da árvore (a reinvenção da memória)", Muchia Publicações, colecção Poéticas de Lav®a, Funchal, 2003
Antologia Horizontes do PD-Literatura, Brasil, 1999
Poiesis II, Poiesis III da Editorial Minerva (MNA), Portugal, 1999, 2000
Antologia "Incomensurável" - Poesia a treze, Editorial Minerva,Portugal, 2000
"Inspiração Erótica" - Antologia da Associação Cultural de Jundiaí, Brasil, 2000
"Espelhos da Língua" da Sociedade de Escritores de Blumenau, Brasil, 2001
"Quatro Poetas da Net", Edições Sete Sílabas, Setembro, Lisboa, 2002

Prefaciou os livros "www.3poetasemleiria.pt", de José Gil, Don Lackewood e Constantino Alves; "Laços & Lazos" de José Gil e Sónia Regina; "De cada poro um poema" de Antoniel Campos"; "Catavento" de Everardo Torrez Getz
Muitos dos seus trabalhos estão publicados na Rede, em várias páginas literárias Digitais, portuguesas e brasileiras, como a [NON], Usina de Letras, Palavreiros e Nave da Palavra.

http://www.terravista.pt/mussulo/1701/
jonasfel@netcabo.pt

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