Portugal

Vindima antecipada
                                   Laura B. Martins


Foi a vindima, em Portugal, antecipada.
Foram os cachos, antes do tempo, colhidos.
Parcialmente, era a parreira dizimada
por esfomeados passarinhos, atrevidos.

Nesta cadeia, de que a terra se compõe,
pode ser mínimo mas, cada elo, importa.
Apavorada pelos fogos, se dispõe
cada avezinha a viajar, ou cair morta.

Num contra-senso criminoso, o homem mata
tudo que existe à superfície do planeta.
Todo ser vivo ele destrói ou desacata

e, não lhe importa, que o futuro comprometa.
Espavorida e com fome, a ave ataca;
e, joga a ordem deste mundo, na sarjeta.

11/09/2003



Última folha
                                   Laura B. Martins


Uma árvore velha, retorcida,
na paisagem que avisto da janela;
de tronco bifurcado, ela resiste
às intempéries. Pareço-me com ela!

Todos os dias a vejo, erecta, firme;
abrigando pássaros. Com folhas
colorando, ao sabor das estações.
Assim, durante a vida fiz escolhas.

Na Primavera, escolhi viver feliz.
É próprio do verdor da natureza
de quem é jovem, e pensa que o amor
é um reino encantado. Só beleza!

Escolhi, eu, dar à luz os meus rebentos
com a chegada do Verão; ramifiquei-me.
A sombra aos cansados viandantes
foi duplicada; fiz-me em duas... bifurquei-me!

À minha volta rodopiam folhas, vento!...
Bailam, chilreiam, como filhas que se vão
seguindo a vida, o destino, esperançosas.
Um frio d'Outono trouxe-me a desilusão!

Gélido Inverno, que me deixa entristecida.
Presa num ramo, a última folha cai.
Enfim, liberta dos deveres familiares (!)
Rolou a lágrima, um soluço me contrai.

Mas, outra Primavera se anuncia.
No renovar do ciclo, posta à prova,
retorno à vida, algo ressequida,
um pouco menos forte, e menos nova.

5/03/2003



Uma carta
                                   Laura B. Martins


Não deixo de escrever-te, minha amiga.
Lamento, se te deixo angustiada.
Estivesse eu junto a ti e a minha briga,
co'a vida, era coisa já passada.

Contigo, aprenderia a dar-me inteira
sem que, na volta, algo recebesse.
Contigo, veria qualquer asneira
dissipar-se, mal o dia amanhecesse.

Nunca guardaste mágoas, por ninguém.
Vives dia após dia, a trabalhar.
No meio da tanta lida, para alguém,
que necessite, tens tempo para dar.

Teu ânimo, me chega por mensagem,
no meu PC, as letras bailadeiras.
Sempre consegues transmitir coragem,
desse Brasil longínquo, brincadeiras.

Pelos traumas da minha juventude,
receio o mealheiro não encher.
Poupar, em mim, não é uma virtude;
porque tudo faz falta, sem fazer.

Assusta-me ir tão longe, conhecer-te.
Perturba-me ir tão longe, visitar-te.
Parece que o melhor modo de ver-te,
será nessa viagem ajudar-te.

Tu pensas numas férias merecidas,
junto da tua amiga portuguesa.
Paras, durante uns tempos, com as lidas...
e aqui terás descanso, cama e mesa.


21/01/2002





Laura B. Martins - Portuguesa. Nascida em Lisboa, 22 de Julho de 1943.

Um dia, abalada com a ausência da filha para o estrangeiro, magoada e com os sentimentos em conflito, dediquei-me à escrita.

Fluía mais fácil em verso. A princípio receosa... depois mais confiante...
Parti à descoberta de um universo em forma de poemas: «O meu diário»!
Estava na altura de passar ao papel tudo quanto tinha acumulado ao longo da vida.

Não foi fácil, mas sou mulher de coragem!

Meu poema de apresentação:

escrevo... danço... EU SOU:

Espírito jovem, romântica, enlouquecida!
Alma que expande, para além da própria vida!
É na poesia, que transcende o sofrimento,
que eu sempre encontro para a dor o linimento!

Escrevo poemas com música de fundo.
Escrevo o que sinto, fecho os olhos ao mundo.
Escrevo em silêncio, na paz da minha casa...
e de manhã, enquanto a lida atrasa.

Não escreverei poesia rebuscada!
parecendo em dicionário pesquisada)
Os meus poemas são pra toda a gente!
como guitarra chorando, plangente)

A minha escrita, lida e interpretada,
mostra a poeta, sofrendo angustiada,
expondo-se ao outros; facilmente entendível.
Aos vossos pés, prostrando-se, acessível.

Noutros momentos, horas de alegria...
esquecido o que passou, era outro dia...
Quando a vida volta a ser uma festa...
Então dancemos, ao som da minha orquestra!...

11/2000
Laura B. Martins
laurabmartins@netvisao.pt
http://www.laurabmartins.pt.vu
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