Portugal

 

                     Luísa Ribeiro

 

Não me suicido ainda porque te quero
ver vestido para o Verão, quero
medir o músculo escuro que te sobra
à camisa, e passar a língua
na linha cortante dos teus dentes
brancos. Eu quero
os teus dentes brancos
para mim, por isso deixa-me
esperar este calor, onde aparecerás
vestido ou despido
de linho brando.


17/Junho/2003



 

O teu corpo esconde o mistério
de mil livros - a justiça das leis
por incendiar, nesta honesta batalha por ti.
Mas eu não tenho armas.
Só luto com os dedos doridos - procuro
a tua forma original, o dilúvio, a lava que se encobre
na pedra fria que me acerta.

E o teu corpo, sob a roupa, estremece
em cada letra que te escrevo
com pseudónimo.



 

Envia-me postais da selva, com a maçã mordida nos teus dentes, insectos pousados em árvores que rompem a celeste sobra da montanha. E não inscrevas palavras no meu suspiro, no luminoso espelho em que navega o último grito, som do galope estilhaçado nos meus ouvidos homéricos.

Onde procuro o feroz rumo desta paixão de cutículas, expressas a memória da terra e da casa e andas por aí, ausente do pátio, à margem desta floresta ruiva - abstracto postal com plátanos felizes que me envias deste lago narcótico.
E se sangrares, se te acertar a seta amorosa, recolho ópio às folhas verdes, agarro neve e espinhos e chego-me para ti exibindo as ardentes rosas no peito.

Vem da luz do mar, aos meus olhos de fera perdida.



Luísa Ribeiro, 43 anos, nascida em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira. Tem um livro de poemas publicado "Fogo branco" e participa em jornais e revistas da Região e em paginas Literárias on-line.
luisa.ribeiro@ine.pt
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