Portugal

    Maria Petronilho

 

Levamos Bandeiras Negras


Cortando a sombra das ruas
Desertas, portas fechadas.
Levamos bandeiras negras
E as faces escavadas.

Estão desertas as aldeias
E as fábricas fechadas.
Estão os campos em cinzas,
Nossas vidas destroçadas.

Cortamos a passo as brumas
Porque vamos de mãos dadas
Na miséria que nos ronda,
No choro que se acoberta.

E persistimos na luta

Sem termo, desesperada
Pelas ruas de amargura
Seguimos por esta estrada
Erguendo a bandeira negra

Na esperança desatinada.

Lisboa (Almada) Portugal,
26/10/2003

 

 


Outoneci

 

Lá pela décima hora
Abri olhos e janela
Uma brisa fina e fria
Estremeceu-me,feiticeira.
Caía a chuva primeira
Céu e Tejo se enlaçavam
Numa penumbra de cinza
Outoneci todo o dia
O mês de Setembro finda


Almada,
30/9/2003

 


No Fulgor de Ti, ó Mar!

 

Rosal de espumas
Aromas
Vindos dalém
Aonde
A terra e o mar
Se fundem
Num único
Imenso ser

Colo pronto
A receber
Todos os sinais
De querer

Até o sol vem
Deitar
Sua cabeleira
Ruiva
No fulgor de
Ti ó mar!
E as estrelas brincam
Nas ondas
De se esconder!
A lua baloiça-se
A noite inteira
No teu abraço
Infinito

Eu estremeço
De pensar
Que detenho
O teu sabor
Em cada beijo
De amor!

Vila Galé, 19/12/2003

 


Maria Petronilho - Nasci em Lisboa, no fim da primavera de 1952.
Ler e escrever aconteceram ao mesmo tempo e com a mesma naturalidade com que se aprendem as primeiras coisas da sobrevivência: comer, andar, falar...
Foi o lado feliz do meu Fado, que me salvou da solidão, da submissão, da queda em todos os precipícios da vida.
Fado feliz que sempre cantei e cantarei,
por mim e pelo amor universal que me leva adiante!
mariapetronilho@netvisao.pt

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