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Maria Regina Oliveira de Araújo


a autora?

entrevista
*(em construção)

poemas/poesias

prosa*(em construção)

Sobre obra poética/fortuna crítica*(em construção)


 

MARIA REGINA OLIVEIRA DE ARAÚJO
"Avistei a luz do mundo pela primeira vez em Jacobina - Bahia. Tornei-me retirante acompanhando o rio da vida, feliz por ler nestas águas: João Cabral de Melo Neto, Cora Coralina, Federico Garcia Lorca, Pablo Neruda e Juan Carlos Rodriguez Latorre. Desde dezoito de setembro de 1963, sigo a procissão dos dias e da humanidade".




Retirante

                                        Maria Regina Oliveira de Araújo

Sempre ouvi dizer
Que os desertos eram longe daqui.
E que no Brasil não havia desertos.
Por certo esqueceram de mapeá-los.
São tantos que o mapa não abarcaria.
E na maior cidade da América Latina
Todos sem exceção usavam máscaras, por causa da poluição.
O sol não brilhava. A lua vivia ofuscada pela fumaça,
as plantas não cresciam.
Só havia asfalto, concreto, fábricas, poluição, multidão
comprimida em vãos.
Essa era a minha visão de São Paulo.

Também não fugi à regra, como tantos nordestinos viajei
de pau-de-arara até São Paulo.
Enquanto o caminhão se perdia nos buracos corria eu em pensamentos
igual lançadeira de máquina de costura, indo e vindo para frente para trás
no tempo que só se prende na memória da gente.
Viajei...
Por não ter retrato fotografei meus pais casando nas missões de Frei Damião.
A tarde caía nos braços da noite. Dormi nas serras do Araripe.
Experimentei o que meu pai enfrentou na mocidade:
assombrações, escavações de botijas.
Tive que fazer promessa com Padre Cícero para receber suas graças.
Valha-me Nossa Senhora!
Levei-lhe agrado em Juazeiro do Norte. Uma abóbora que era o
que tinha na roça. Para suas obras de caridade.
Confesso que senti medo ao encontrar Lampião.
Homem valente. Arranca orelha, faz cabra subir em mandacaru, dançar na
ponta do facão. Mas há quem diga homem de bom coração.
Sendo assim arrisquei pedir-lhe com muito cuidado um pouquinho
da formosura de Maria Bonita, enfeites babados de chita.
Mulher amante, amiga companheira. Sim senhor!
Ele me aconselhou voar nas asas do fogo-pagou, flutuar nas penas
Do juriti aves de arribação.

Assim cheguei a Monte Santo. E não se espantem.
Avistei Antonio Conselheiro trazendo Canudos nas mãos.
Que homem maluco...
Então não sabia que verde mesmo só nas cabeças de frade, cactos do sertão?
Deixa estar...
Por causa dessa maluquice de ver esperança em tudo é que foi morto.
Somente por que sonhava um mundo irmão.
Não se preocupem não. De lá para cá brotaram milhões de Conselheiros
Que se esparramam no Brasil inteiro.

Terra boa!
Quanto mais matam mais nascem santos Conselheiros.
Importa abraçar santos ainda vivos antes de se tornarem mitos.

Andei tanto que no fim das contas não sabia no balanço do carro
Se ia para frente ou para trás.
Ai é que vi miséria...
Emboscaram Lampião e seu bando na minha frente.
O Angico avermelhou-se de traição
A caatinga esfarrapou-se em humanas peles
E por garantia macacos arrancaram as cabeças:
MARIA BONITA E LAMPIÃO.

É... pelo menos ficaram os sentidos do cangaço: olhos, bocas, narizes, ouvidos.
Pela primeira vez viram o mundo do alto sem viajar de avião.
Sentiram cheiro do próprio sangue correndo no chão onde correria leite e mel.
Experimentaram o gosto da terra.
E sangue azul enlatado nas veias perfeitas debochavam: dos olhos cerrados,
Das bocas fechadas, ouvidos tapados, narizes sufocados.
Abutres comeram a beberam o cangaço.
Mesmo de mãos enrijecidas transpuseram a caatinga para a literatura
sem precisar caneta. Pena só do sofrê.
Embolaram suas línguas caladas às dos anjos.
Ouviram todas as línguas falando ao mesmo tempo numa confusão de causar
Inveja a Torre de Babel
o amor arriscado e a justiça que fizeram enquanto o sol escaldava o juízo
a lua embalava os sonhos de paz de Maria Bonita e Lampião.

Nesse momento embacei o coração.
Perdi a estrada de vista e não vi passar capim, mato seco, poeira.
Tudo ficara para trás.
Arranha-céus apagaram a minha sombra.
Cheguei sem som e sem imagem a São Paulo.
Se desfez a impressão de uma cidade apenas escura.
Aqui chove muito, faz frio na pele e na alma.
Pensei que havendo tanta gente junta o calor humano seria maior.
Vejo que me enganei.
Milhões de pessoas se topam e não se encontram.
Se vêem e não se olham.
É assustador.
Massa humana fria, andando congelada.
Pergunta-se a um estrangeiro o que representa no centro da multidão veloz
A resposta é sempre a mesma. Um número e se for número sem valor.
O que fazer para não morrer?
Visto que a morte é o que resta.
Morte antes do tempo de fome um pouco por dia.
Não morte morrida mas morte matada.
Agora vejo que antes de saltar fora da ponte do Tietê
E da vida Severinos enlouquecem.
Cantam ciranda, cantiga de roda na Praça da Moça onde a cultura rodeia
centros culturais; logo tribo de loucos uns pelos outros.
Palavreando poemas feios.
Viajando sem sair do lugar.
Educando ouvidos para confiar seus versos.
Palavreiros aconchegam-se para não morrerem no deserto da grande metrópole.
Suplicam: Salva São Paulo outros forasteiros ou mesmo teus filhos naturais
Da morte à flor da mocidade.
Sufocados pelo tédio,
Angústia, Indiferença, Aniquilamento.
Na cidade que São: Paulas, Elaines, Beths, Juans, Reginas, Raffis, Renis, Adrianas, Osmares, Elvis, Adolares, Lurdes, Helias, Edwins, Zecas...
Filhos de tantas Marias.
Rosário de nomes de gente. Não de máquinas.
Que escrevem palavreiros sobre o negro papel do asfalto. Soprados a poluição.
Arriscam soltar versos a cidade para viver de amar: terra, bichos, plantas, homens.
LIVRES DO FRIO.
SALVOS DA ESCURIDÃO!

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