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Osmar Almeida


o autor?*(em construção)

entrevista
*(em construção)

poemas*(em construção)

prosa
A Vida no Lixo
Duas Estações


Sobre obra poética/fortuna crítica*(em construção)



A Vida no Lixo

                                    Osmar Almeida


Sentia-se agitado e foi dormir. Deitado em sua cama recordava de tempos em que a escuridão da cela era o seu único entretenimento. Tudo ficou para trás, pensava consigo, ainda que uma voz cada vez mais dentro de si parecia responder, mas nem tudo.

Era sábado. O sol estava nascendo e os primeiros raios de luz entravam pelos espaços da janela de madeira, seu sono pesado não o deixaria perceber alguns ruídos no quintal de sua casa. Ruídos, estes, onde sua Marlene participava. Na verdade era uma corriqueira discussão entre vizinhos. Algo desagradável, porém nada de extraordinário.

Rosa, a vizinha, esbravejava. Era extremamente perfeccionista, filha de pernambucana, seu sangue fervendo corria entre as veias, quando algo lhe afligia. Acordava cedo para lavar o quintal e colocar o lixo na rua, para a empresa responsável pelo recolhimento do lixo viesse buscar.

Marlene era o oposto de Rosa: mulher fogosa, astuta e com uma lábia aguçadissima, levantava-se tarde e sempre punha o lixo na rua à noite para não despertar logo cedo.

Polaco e Alcapone eram dois vira-latas, protagonistas de uma tragédia. Mal sabiam que aquele ato em estraçalhar o lixo de sua dona, espalhando-o por toda calçada, pudesse causar tanta dor.

Indignada com a imagem diante de seus olhos, Rosa esbravejava, maldizia, fazia e acontecia, até chamar a atenção da dona dos cachorros. Marlene, despenteada e com o rosto amarrotado, sai em busca de uma explicação para tanto escândalo:

- O que está acontecendo? Pergunta a vizinha com voz alta.

- Não está vendo? Seus cachorros empestiaram toda a calçada. Quero que limpe agora mesmo, ou farei escândalo ainda maior.

Marlene, como não tinha a maior paciência, lançou-lhe várias ofensas, algumas eram extremamente duras, o feria a honra de sua vizinha. A outra, cada vez mais irritada, aumentava seu tom de voz, acordando assim a vizinhança e os respectivos maridos.

O circo estava armado.

Levantou-se assustado, com o mesmo pressentimento de outras ocasiões. Saiu até o quintal e presenciou a cena. Pensava consigo se esta era a sua sina. Subitamente, aparece também o marido de Rosa, tomando partido da esposa. Era um senhor alto e obeso que apresentava marcas de sofrimento pela vida afora, tentando apaziguar ou piorar ainda mais a situação.

A cabeça rodava, um sentimento crescia dentro de si. Era cruel ver o seu corpo tomado por tamanha impulsão.

Rosa e seu marido agora se revezavam entre ataque e defesa. Formavam realmente um time, unidos pelo mesmo objetivo. Marlene se encontrava perdida diante da voracidade do cônjuge. Então olhou para seu companheiro, como um convite.

Ele talvez possa não se lembrar como começou. A única coisa certa é que o fato se repetira: foram quatro apenas quatro, o suficiente para acabar com a vida daquele homem de 130 quilos. Com a enxada na mão, a lâmina toda ensangüentada, já não tinha o que fazer. Sua esposa, como de costume, preparou a mochila, colocou seu revólver calibre 38 envolto em uma camiseta, assim como os outros utensílios.

Com um beijo na fronte despediu-se de sua esposa e, correndo pelas ruas afora, sob os olhos da população ainda inerte, fugiu.

Via-se no mesmo local de outrora, a cela escura, o mofo das paredes, os ratos a sua volta, as baratas, as pulgas, aquelas pessoas... Como odiava tudo aquilo.

Passaram-se semanas. Sua esposa sempre o visitava. Perguntava ainda que fosse para si mesma o porquê de tudo aquilo. Os olhos do esposo em lágrimas eram a única resposta. Nenhuma palavra lhe saía da boca. Apenas devolveu o mesmo ponto de interrogação que sua esposa lhe havia lançado.

Passados meses, João, o advogado, foi ter com seu antigo cliente. Olhou para aquele homem e lhe disse para seguir seu rumo, em outro bairro, em algum lugar distante. Toda documentação já havia sido providenciada. Como antes, poderia exercer sua atividade normal, seguindo as determinações do chefe.

Enfim, livre daquela cela, mas preso em si próprio, caminhava a passos lentos pela rua, pelo seu destino, esperando a próxima peça.




Duas Estações
I

Vertente
O meu corpo é seco
A minha alma verte esperança
Já não possuo mais o mesmo sorriso de criança


Osmar Almeida

O sol lhe ardia a cabeça, seu corpo franzino, sua estatura mediana dava-lhe a condição de poder continuar a árdua jornada.

Entre vários, poderia ser João, Joaquim, Severino, Inácio, Pedro, Sebastião, mas vou lhes falar de José, um nome comum, uma vida comum, uma mão cheia de calos escondida pelo cabo da enxada.

José, em uma tarde ensolarada, embrulha seu cigarro de palha, olha para Sebastião, um negro alto, trazendo no rosto as marcas sofridas da vida, e lhe fala:


- Bastião; tenho vontade de i'mbora, mudá o rumo de minha vida, os calos que me cerca 'tá atingindo minha alma, acordo todo o dia com o mesmo pensamento, quero discansá minha carcaça seca num cochão di 'spuma.

- Às vezes Zé, me sinto como 'ocê, a sola dos meus pé, já num 'guenta mais caminhá sobre tanta injustiça, eles 'tão rachados por pisá no solo que arde, levando o meu corpo seco nos confins do sertão.

Naquela noite sentia-se esperançoso, um pouco temeroso do que lhe podia acontecer, sentado no degrau da escada magoada da vida, José se decidiu.

Os primeiros raios de sol iluminavam os camponeses, que ali já estavam há algum tempo. Dentre eles, estava faltando José, mas José não era de faltar. Onde estaria José?

Nos olhos daqueles passageiros, a esperança, o silêncio reinava absoluto, o destino era a cidade grande, como diziam, a cidade era São Paulo que poucos conheciam. Olha ali o José! Calça nova, camisa alinhada, sapato engraxado e a mala cheia de sonhos.

O balanço do ônibus, a poltrona dura, a barriga vazia, aquilo não incomodava. Lembrou-se de sua mãe, prometera enviar parte do que ganhasse, para atenuar a vida que lhe amarga. O primeiro dia dentro daquele ônibus havia chegado ao fim, restavam mais dois, as trouxas sobre o chão do veículo, o olhar, o silêncio...


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II
Grades

Um tiro, um cadáver, um morto

Wilson Marcos


A umidade das paredes lhe trazia vários danos a saúde, escura e fria aquela cela estava-o consumindo, a sujeira, os ratos, já não agüentava mais tudo aquilo. Havia o Mixirico, Ti Negrão, Alemãozinho, Bochecha, mas vamos falar de Bilim, ou José Carlos o seu verdadeiro nome.

Hoje é o dia de visita, sua irmã havia lhe comprado uma calça nova, uma camiseta bem larga, era assim que ele gostava. Tudo isso, eram os preparativos, pois dentro de dois dias, aquele homem alto, forte, de semblante fechado, sombrio, que carregava sempre uma medalhinha no peito que sua mãe lhe dera há tempos, iria sair daquela prisão.

Os acontecimentos se passam em sua mente, como se fosse um filme, um tiro, um cadáver, um morto. Preso em sua cela, preso em seu corpo, com a sociedade em volta presa, seu destino era estar naquele circulo vicioso sempre.

Aquela cela a sua volta, lhe dava arrepios, fechava então os olhos para não ver, escutava as batidas rápidas e descompassadas do seu coração, algo queria sair de dentro de si, mas não conseguia.

No corredor da cela, o vento sopra forte, todos cabisbaixos, olham o poço fundo de nossas almas, o silêncio reina absoluto. Mais um dia se vai, a noite agoniza a espera.

Os primeiros raios de sol entram pela janela da cela, e José Carlos, o Bilim, já se encontra imaginando o mundo que lhe espera, sem saber que o mundo não lhe espera mais nada. O café como os amigos de cela tem tom de despedida, de recados, beijos e abraços a quem está lá fora. O dia passa lento, os ponteiros do relógio não tem pressa, como se estivessem brincando de estátua, quando criança era o que mais gostava de brincar. Hoje já não brinca mais, apenas observa a sociedade inerte ao seu redor.


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III
O dia de José

As pessoas continuam a caminhar
E a cada hora que passa
Aumenta o número de participantes
Rumo a qualquer lugar
Procurando qualquer coisa
Que lhes dêem prazer
E os façam descansar

Osmar Almeida


Sexta-feira, as pessoas mostram cansaço, no vai e vem da cidade frenética, nos deparamos com situações inusitadas, vejamos, onde estávamos mesmo? Ah! Me lembrei. Você pode estar perguntando cadê o José e o Bilim, ou melhor o José Carlos, pois agora vou-lhes contar.
O portão enorme de ferro se abre, a claridade que o sol lhe proporcionava enchia a alma, os ratos haviam ficado para trás, a cela úmida, a sujeira, bem, não era isso que queria pensar agora. Livre, a esperança pode se materializar e até ser tocada, pois ela está em suas mãos, no seu rosto, no meu rosto, no garoto flagelado parado na esquina.

O dia soa como música desconhecida, em que os primeiros acordes nos tocam a alma. José, guerreiro, homem de fé, força irmão! A porta do ônibus se abre, as portas da vida sempre estão abertas, seu olhar assustado tentava descrever o ritmo daquelas pessoas que andavam depressa, com uma expressão preocupada. Carregando a mala pelo corredor da rodoviária, avistou a estação do metrô, haviam dois destinos, Jabaquara ou Tucuruvi, optou pelo segundo, subindo a escada rolante pensava no que agora deveria ser feito.

A composição estaciona na plataforma, José entra, senta-se e observa todos os detalhes, as portas se fecham, e a composição sai. A estação Carandiru era a próxima, José continua olhando com detalhes tudo ao seu redor, as portas se abrem, entram por elas algumas pessoas, dentre elas um homem de calça jeans e camiseta larga, que procura então cuidadosamente um lugar para sentar, fita os olhos em José e percebe que ao lado o lugar está vago e então decide-se sentar.

Lado a lado os dois Josés, prosseguem a viagem, com o mesmo olhar, com a mesma esperança, talvez nunca venham a se conhecer e perceber que suas histórias são bem semelhantes, talvez conheçam outras histórias que falam sobre esperança, recomeço, o que muito tem a ver com a grande história de nossas vidas.

A viagem prossegue, nossos dois personagens continuam a observar tudo com detalhes, sem palavras, o ambiente é sobrevoado pelo silêncio, que reina absoluto.

© GRUPO PALAVREIROS - 1999/ 2006
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