Antologia "Tempos Perplexos" - alguns poemasconheça os participantes do grupo "Palavreiros"conheça os participantes do grupo "Palavreiros"crítica literária /  ensaios / entrevistasAntologia "Tempos Perplexos" - alguns poemasLivro marca os 10 Anos de Literatura em Diadema Agenda Cultural: Informes / Dicas de leitura3º Festival - "Palavreiros - Dia Mundial da Poesia"Antologia "Tempos Perplexos" - alguns poemasLivro marca os 10 Anos de Literatura em Diadema 3º Festival - "Palavreiros - Dia Mundial da Poesia"

Paula Barbosa


a autora?

entrevista
*(em construção)

poemas/poesias*(em construção)

prosa

Sobre obra poética/fortuna crítica*(em construção)


PAULA BARBOSA, 40 anos, artista plástica, professora de matemática, escreve esparsa e brilhantemente. Tem obras publicadas em zines e no site do Palavreiros.


 

 




Procura
                                 Paula Barbosa

Caminho a passos largos, sem tréguas. A vida pulsa, intensa, intermitente ao toque batido do coração. O sangue em meu corpo circula por estas ruas e avenidas, competindo por um espaço entre a multidão de vidas. Indiferente massa humana movente rola e se engrena nos automóveis, caminhões e mendigos. Asfalto negro e quente. Nas passarelas, o pânico. Assaltos e estupros à luz do dia, a qualquer hora do dia cinzento. Detritos em frágeis sacos sob o viaduto sujo, cinza-pardacento, recoberto de papéis colados sobre outros, de peças antigas e políticos desconhecidos e risíveis. Barulhos ensurdecedores. Buzinas, sirenes, aceleradores. Escapamentos-poluentes do ar carregado de muito monóxido de carbono e pouco oxigênio. Faróis. Verdes, amarelos, vermelhos, azuis, prateados. Indigentes solitários, apáticos, esquecidos sobre a calçada fria e imunda. Nos pés, rachaduras. O sangue escorre das feridas expostas. Nos ombros, a coberta vermelho-xadrez-suja que o epilético da outra calçada não tem. Entre papelões e trapos fétidos dorme mais um, junto ao catarro desta cidade. Nas filas de hospitais pacientes pálidos, desgrenhados. Odor acre de remédios e desinfetantes baratos. Das roupas surradas e lençóis manchados de vermelho-sangue-escuro, amarelo-pus e urina dos homens jogados sobre as camas feridas de ferro-ferrugem e articulações quebradas.

Nos casebres de pau-a-pique, sobre córregos putrefatos, sobrevoam insetos; povoam germes e vermes as terras e águas paradas e podres adentrando janelas, portas, frestas. Nos corredores estreitos, alheios, meninos brincam na lama negra à sombra de edifícios majestosos. Nas faces escuras, símias, manchas brancas entre rugas e vínculos precoces. Ventre inchado. Exorbitantes os olhos ofuscados pelo cotidiano. Realidade implacável na monotonia dos dias grotescos, massificantes, sem alegria, embotando o apelo sobrevivencial, anatrópico. Pelos caminhos, o poder exercendo o jogo entrópico dos deotoncratas disputando adeptos: ingênuos, fanáticos, maquiavelicamente crentes.


Antologia "Tempos Perplexos" realização do Departamento de Cultura de Diadema.
Concepção, seleção, organização: Beth Brait Alvim

© GRUPO PALAVREIROS - 1999/ 2006
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS