PAULA BARBOSA,
40 anos, artista plástica, professora
de matemática, escreve esparsa
e brilhantemente. Tem obras publicadas
em zines e no site do Palavreiros.
Procura
Paula
Barbosa
Caminho a passos largos,
sem tréguas. A vida pulsa, intensa,
intermitente ao toque batido do coração.
O sangue em meu corpo circula por estas
ruas e avenidas, competindo por um espaço
entre a multidão de vidas. Indiferente
massa humana movente rola e se engrena
nos automóveis, caminhões
e mendigos. Asfalto negro e quente. Nas
passarelas, o pânico. Assaltos e
estupros à luz do dia, a qualquer
hora do dia cinzento. Detritos em frágeis
sacos sob o viaduto sujo, cinza-pardacento,
recoberto de papéis colados sobre
outros, de peças antigas e políticos
desconhecidos e risíveis. Barulhos
ensurdecedores. Buzinas, sirenes, aceleradores.
Escapamentos-poluentes do ar carregado
de muito monóxido de carbono e
pouco oxigênio. Faróis. Verdes,
amarelos, vermelhos, azuis, prateados.
Indigentes solitários, apáticos,
esquecidos sobre a calçada fria
e imunda. Nos pés, rachaduras.
O sangue escorre das feridas expostas.
Nos ombros, a coberta vermelho-xadrez-suja
que o epilético da outra calçada
não tem. Entre papelões
e trapos fétidos dorme mais um,
junto ao catarro desta cidade. Nas filas
de hospitais pacientes pálidos,
desgrenhados. Odor acre de remédios
e desinfetantes baratos. Das roupas surradas
e lençóis manchados de vermelho-sangue-escuro,
amarelo-pus e urina dos homens jogados
sobre as camas feridas de ferro-ferrugem
e articulações quebradas.
Nos casebres de pau-a-pique, sobre córregos
putrefatos, sobrevoam insetos; povoam
germes e vermes as terras e águas
paradas e podres adentrando janelas, portas,
frestas. Nos corredores estreitos, alheios,
meninos brincam na lama negra à
sombra de edifícios majestosos.
Nas faces escuras, símias, manchas
brancas entre rugas e vínculos
precoces. Ventre inchado. Exorbitantes
os olhos ofuscados pelo cotidiano. Realidade
implacável na monotonia dos dias
grotescos, massificantes, sem alegria,
embotando o apelo sobrevivencial, anatrópico.
Pelos caminhos, o poder exercendo o jogo
entrópico dos deotoncratas disputando
adeptos: ingênuos, fanáticos,
maquiavelicamente crentes.
Antologia "Tempos Perplexos"
realização do Departamento
de Cultura de Diadema.
Concepção, seleção,
organização: Beth Brait
Alvim
|