Tempos & Territórios


                                 Ademário Augusto

 

 

Metamorfose

Nuvens de chuva - debruçam em rios:
Espelham matas - ardem em chamas
Sobre a relva, réptil desliza:
De pedras de séculos - esquiva

A tarde avança, mansamente
O orvalho pousa / o mato intacto
Ao inseto, causa / objeto, impacto
O pássaro, estalo - fatal disparo

A tarde descompassa / Espreita voraz
A pausa, o bote / o golpe veloz
Gritos silenciam / o canto emudece
Ventos Norte / a morte carece / vermelho é a rosa
A terra cora - preguiçosamente

Terra em transe / absorve a chama
De cima - ave de rapina:
Arremesso à presa - indefesa
Alimenta o eco - ecossistema
A tarde finda / a trama
A insônia / a morte ronda
A lua é minguante
É a chama / é a dança, é o drama

Sobre a relva - o ventre
Sobre pedras / metas / metamorfose
Sobre nuvens / entre nuvens / nuvens
Desertos formam - séculos e séculos repousam
Selva de pedra / a fauna degrada

A grana - mata, devora a mata, a flora, a fonte
Arrasa o m(ar), o solo, H2O
Desengano, alastra - sem dó - aflora a dor
Domina, corrompe / a chama consome:
Predador - bicho - homem
A fome - metamorfose - predominante?

 

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Nascido em 1950 em Jequiriçá, na Bahia, morou em Vitória da Conquista por 10 anos e veio para Santo André em 1969. Atualmente reside em Diadema. Aos 40 anos formou-se em Arquitetura. Participou do Mapa Cultural Paulista (Diadema, 1999), sendo premiado com o poema "Abandono"; escreveu outros e espera publicá-los futuramente.
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