Tempos & Territórios


                                 Adolar Barreira

 

 

Humano demais

Patrão nosso do paraíso
ajoelho pra agradecer
as bênçãos de todo dia

Agradeço a proteção fardada
os golpes na cabeça
o medo nas veias
e a dignidade em leilão

Agradeço as mortes numeradas
limpando as ruas
salvando audiências
me dando diversão

Agradeço as redes de controle
matar inocentes
evitar novos riscos
proteger o cidadão

Agradeço a multiplicação dos órfãos
novos bichos nos quintais
tão sujos que cuspo neles
pra me limpar e dormir

Agradeço as notícias,
o rádio e a televisão
de várias formas me submeto
e aprendo melhor a lição

Agradeço pelos que traíram
e pelo prazer da maldição
garantindo trabalho e renda
aos profetas de plantão

Agradeço o ódio ensinado
os brinquedos da inveja e da guerra
crianças geniais que aprendem
o silêncio e a solidão

Agradeço por tanto desprezo
ao que perdura e ao que floresce
esquecemos assim o passado
e vencemos as imperfeições

Agradeço nossa civilização
de grandes casas bonitas
entre as grades distantes eu vejo
as pessoas sorrirem pra mim

Agradeço enfim
ao que não é santo
ao que não é sujo
aplaudo e me assusto
porque minto e fujo
dessa tremenda vontade de morrer

 

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Nasci na capital de São Paulo(18.08.1975). Fui um garoto que adorava Júlio Verne e HQs, inventando histórias com meus brinquedos. Aventurei-me na militância política "revolucionária" entre os 16 e os 23 anos, e comecei a trabalhar nos centros culturais de Diadema em 1994. Em 1999 participei de uma oficina literária ministrada pela Elizabeth Brait Alvim, e apesar de já escrever desde meus 13 anos, foi ao conhecê-la que comecei a arrancar o pouco de poética presente em meu espírito torto e bufão.
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