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Nunca gostara de sapatos. Eles sempre apertados.
Eles sempre impossíveis. Armaduras cintilantes. Pretos
marrons? Sapatos. O escorregadio pisante. O absurdo ardente.
Heróico símbolo. Sapatos.
Eis que nunca, em seus tantos poucos anos, exercera cargo
onde implicasse o moderno instrumento.
De tênis os mais diversos corria vida. No seu conforto
inarredável de horas vencidas. E tudo mais, sem sapatos.
"Que necessidade infundada, esta malcheirosa".
Lembrara-se certa vez o pisar da terra de tempos idos. Corrida
e pé na lama. A grama o sol e a brisa. A grama o sol
e a vida. Menino de cores encantos. A grama o sol e a ameixeira.
Talvez dissessem: "Ora, não combinas tênis
e calças"
Eis porém que se agiganta o breve esquema. E no rigor
das exigências - "É que vou casar, Camarada"-
um sapato compra. Simples o mais. Frio como pede o veredicto.
Implícito então vaga pra ser padrinho.
Por estranho sente certa volúpia num instante sincero.
Garoa fria no centro capital e o pé se machuca.
"Sabia"
Adentra um bar. Na sua única solidão quer empada
e suco de goiaba.
Sentado tira o sapato. Movimentando os dedos como aquecendo
para fabuloso exercício.
Sapato ao lado mastiga veemente a refeição.
"Ei senhor" - e uma mão toca-lhe as costas
retendo o próximo gole ainda na taça.
Quando volta meio corpo para o lado da novidade, a voz: "Graxa
?"
No segundo mais longo de sua história decifra algum
segredo qualquer infinito e não ousa palavra.
"Graxa ?"
Que voz de filho. Que dedos impuros. Que tamanho imprevisto.
Que olhos de Deus.
Algum outro segundo e cabeça lenta que balança
um não, um vão, um mundo.
Outro segundo ainda. O pequeno põe nas costas seu pulso
e vai.
Talvez tenha digerido o resto do suco e da empada. No mais
ninguém saberá.
Recoloca o sapato inacreditável mais pesado.
Parou a chuva.
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