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Augusto, diferente de Agostinho de Hipona,
não chegou a ser canonizado, e digamos que foi mesmo
quase que esquecido, mas foi o mais eminente teólogo
e filósofo de sua época, muito apreciado por
Santo Ambrósio e São Jerônimo, o que levou
ambos quase ao enlouquecimento. Por labirínticas noites
havia visitado a Biblioteca de Alexandria, cujos textos a
humanidade ignora há séculos, havia mergulhado
na guerra dos Atlantes e dos proto-gregos, na construção
das pirâmides através de rios hoje extintos,
na existência de um Aleph em uma delas, e nos textos
de uma estranha profecia que falava sobre um Aleph encarnado
que redimiria os homens e destruiria nações.
Havia se iniciado nos mistérios pitagóricos,
e suspeitava há muito que Deus era um ponto cuja circunferência
estava em toda parte e o centro em lugar nenhum. Se para Agostinho
a verdade é o que é, para Augusto a verdade
é o que se torna, e séculos antes de Rilke murmurava
em noites desveladas que nosso ser perece em um mundo que
também desaparece, e como os hindus e budistas, ele
sabia há muito, como Nietszche o soube depois, que
o eu é uma superstição, ou como Rimbaud,
que eu é um outro, Lorca em um poema dizia que eu não
sou mais eu, Pessoa falava do eu profundo e dos outros eus,
e escreveu odes obscenas das janelas de seu crânio,
e coisas como: não existo, sou um intervalo entre o
que desejo ser e os outros me fizeram. Neruda que eu talvez
eu não serei. Piva que eu sou uma alucinação
na ponta de seus olhos, mas como Augusto era romano, e filósofo
intempestivo disse isso tudo em outras palavras. Essas coisas
se passavam nas noites sem história, Augusto navega,
no nunc stans, no kairós de nossa ancestralidade. Certa
noite devastadora sonhou que mergulhava em um espelho, e nele
encontrava todo o universo que não deixa de nos aprisionar
em suas infinitas dimensões, antecipando a célebre
questão de Boehme, se somos um espelho onde o universo
se reflete ou se o universo é um espelho onde nos refletimos?
Sonhou que escreveria um livro sagrado e sonhou um crepúsculo
no Coliseum, onde a areia também tingia-se de vermelho.
Reter a eternidade em uma hora, e numa flor silvestre a celeste
amplidão, teria ouvido ao ler o Eclesiastes, e entristecia-o
os manuscritos que não visitava. Em um pássaro
em um galho alinhado a uma rosa no jardim, Augusto viu a destruição
de Roma.
O mais extraordinário é que tenha Descartes
recebido a herança de seu pensamento, sabendo-se que
ele supostamente mantinha relações sexuais com
um autômato, e que fazia uso dos paraísos artificiais,
mas nada se sabia de seu envolvimento com os mistérios
das noites sem história, suspeita-se que o ópio
seja capaz de conduzir a realidades insuspeitas do sonho e
do devaneio, ou que nossos Minotauros interiores nos tornem
um labirinto por onde o tempo escoa , sabe-se apenas que outros
teólogos menores sustentavam que a realidade é
continuamente fabricada por Deus, pois se ele se distrair
por um segundo do dedo de alguém, esse dedo desaparece,
era muito difundido na época que o envelhecimento era
um contínuo cansaço de Deus em relação
à sua pessoa, por isso o queda dos cabelos que nada
mais são do que a distração de Deus por
cima das cabeças das pessoas que já haviam vivido
muito e que logo mais queria esquecer. Falava-se também
de nações inteiras que foram esquecidas por
Deus e lançadas no nada. Para Descartes Deus é
uma maquinaria que trabalha continuamente e se parar um momento
de fabricar a realidade o mundo inteiro cai no vazio. Em Alexandria,
Augusto descobriu que a memória de Deus não
é perfeita e por isso o passado estava mergulhado no
não-ser. Augusto havia descoberto também um
cálculo pitagórico, cujo resultado transformava
um Aleph, ou como tradicionalmente conhecido entre eles: um
Alfa, que encarnado manifestaria o divino através das
eras por um sacrifício primordial que tornaria uma
nação eleita e exilaria os outros povos da divindade
tornando-os demônios, esse ensinamento vinha desde os
egípcios, era uma maneira do homem influenciar o divino,
esse cálculo estava oculto desde a formação
do universo nas energias cósmicas, era o equilíbrio
das forças do universo, para que a criatura tivesse,
de alguma forma, voz sobre o criador, era uma maneira de Deus
evitar que enlouquecesse, pois de alguma forma o homem poderia
salvá-lo, mas era uma união com o divino apenas
semelhante à dança de Shiva ou ao sonho de um
Apocalipse renovável, mas era a libertação
de um poder colossal que faria por breves instantes com que
Deus piscasse talvez apenas um olho, mas seria o suficiente
para que algo fosse destruído e algo fosse renovado.
Provavelmente José de Arimatéia jamais teria
suspeitado que o conteúdo do Santo Graal fosse resultado
de números relacionados com o acaso e o destino. Mas
apenas em um ponto, em uma gota de sangue o Aleph seria contemplado,
a gota rolou pela cruz alguns segundos, ninguém a viu,
nela estavam todos os universos em todos os tempos, cada gota
do mar isoladamente, cada face em cada movimento em cada ângulo,
cada sonho de Augusto, Borges havia encontrado um falso Aleph,
Augusto sonhou um verdadeiro para impô-lo ao mundo.
Não era crença comum na época de que
o tempo é cíclico, e Roma, que cultuava Saturno,
não pôde escapar do eterno retorno do imaginário
dos povos primitivos, pois tudo parecia em harmonia em seu
constante avanço e crescimento, e alguns magos temiam
que o tempo se apaixonasse pelas obras de Roma e se tornasse
harmonioso e avançasse e crescesse, ou seja, que Deus
dormisse de tanto tédio, e começaram a pesquisar
sobre a probabilidade de fazer com que Deus se descuidasse
a fim de que Roma fosse destruída. Mas Augusto foi
o único a resolver o cálculo pitagórico
da harmonia dos mundos nos mundos paralelos.
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