Tempos & Territórios


                                 Marcelo Santana

 

 

Arildo Correia e o Deposito de Satã.

O peixe se contorcia nas garras da águia, brilhando ao sol do meio-dia. Arildo imaginou o peixe se libertando e nadando através do céu e sorriu, de modo assustador. As lápides estavam gastas pelo tempo, apesar de muitas delas estarem enfeitadas com ramalhetes de flores frescas. Não havia muro ao redor do cemitério, nem cerca, apenas árvores de amoras plantadas no terreno e curvadas pela idade. Dois postes em forma de nariz de pedra marcavam a entrada, apesar de não haver um portão entre as cavernas; o professor antena invadiu o cemitério. Arildo caminhou em direção às chaves e o Bode marchou à frente. A fogueira ardia em uma fileira de árvores, e no final, uma construção de madeira parecida com um barco de ponta-cabeça abrigava várias criaturas como javalis, duendes, dragões e diabos. Todos dançavam à luz do fogo. Um urso saiu andando de dentro do fogo e Arildo o seguiu; então as formas penduradas se definiram em pernas, rabos, línguas e cabeças. Havia algo de obscuro em ver um boi pendurado em um galho, mas o soluço do bicho e o surrealismo da cena causavam intenso prazer. O homem-urso rasgou o estômago do boi e dezenas de ratazanas beijaram o solo. Era difícil saber se os humanos mortos eram mais ou menos horripilantes que os animais. Os homens conheciam seu destino; Havia um forte cheiro de bebida em seus corpos, mostrando que eles se anestesiavam no caminho até a forca, ao passo que os bichos eram içados com vida e medo. Aqueles rostos massacrados pareciam ter a idade de Arildo... Ele percebeu que ao sabor do vento estranho reluzia um incêndio de ossos: gaiolas de costelas e caveiras com olhos vermelhos repousavam e se misturavam no meio das chamas e fagulhas, cuspindo cores centenárias no cérebro da noite; luzes verdes, roxas e azuis. O círculo infernal brilhava, estalava e explodia em brasa e calor. As chamas eram tão mágicas e hipnotizantes que Arildo não conseguia deixar de olhá-las; então viu seu reflexo no centro das chamas e, neste instante, as labaredas roncaram, consumindo Arildo...

 

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28 anos, natural de Diadema. Possui inumerável produção em prosa. Recebeu influência de E. Allan Poe.
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