|
O peixe se contorcia nas garras da águia,
brilhando ao sol do meio-dia. Arildo imaginou o peixe se libertando
e nadando através do céu e sorriu, de modo assustador.
As lápides estavam gastas pelo tempo, apesar de muitas
delas estarem enfeitadas com ramalhetes de flores frescas.
Não havia muro ao redor do cemitério, nem cerca,
apenas árvores de amoras plantadas no terreno e curvadas
pela idade. Dois postes em forma de nariz de pedra marcavam
a entrada, apesar de não haver um portão entre
as cavernas; o professor antena invadiu o cemitério.
Arildo caminhou em direção às chaves
e o Bode marchou à frente. A fogueira ardia em uma
fileira de árvores, e no final, uma construção
de madeira parecida com um barco de ponta-cabeça abrigava
várias criaturas como javalis, duendes, dragões
e diabos. Todos dançavam à luz do fogo. Um urso
saiu andando de dentro do fogo e Arildo o seguiu; então
as formas penduradas se definiram em pernas, rabos, línguas
e cabeças. Havia algo de obscuro em ver um boi pendurado
em um galho, mas o soluço do bicho e o surrealismo
da cena causavam intenso prazer. O homem-urso rasgou o estômago
do boi e dezenas de ratazanas beijaram o solo. Era difícil
saber se os humanos mortos eram mais ou menos horripilantes
que os animais. Os homens conheciam seu destino; Havia um
forte cheiro de bebida em seus corpos, mostrando que eles
se anestesiavam no caminho até a forca, ao passo que
os bichos eram içados com vida e medo. Aqueles rostos
massacrados pareciam ter a idade de Arildo... Ele percebeu
que ao sabor do vento estranho reluzia um incêndio de
ossos: gaiolas de costelas e caveiras com olhos vermelhos
repousavam e se misturavam no meio das chamas e fagulhas,
cuspindo cores centenárias no cérebro da noite;
luzes verdes, roxas e azuis. O círculo infernal brilhava,
estalava e explodia em brasa e calor. As chamas eram tão
mágicas e hipnotizantes que Arildo não conseguia
deixar de olhá-las; então viu seu reflexo no
centro das chamas e, neste instante, as labaredas roncaram,
consumindo Arildo...
|