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A água nunca
nos afoga, nós é que morremos nela. Debruçados
no parapeito os meninos repetiam a velha cantilena, inventada
no começo dos tempos. Quando, de tanto ver o mar, a
sabedoria da língua era tê-la descansada na boca,
no silêncio reverberava a cantiga, indefinidamente,
vezes muitas e simultâneas que nem o pensamento ágil
das crianças podia acompanhar: a água nunca
nos afoga, nós é que morremos nela. Às
vezes seguiam nesse ritmo até os meandros do sono,
quando então em profundezas oníricas, boquiabertos,
mãos pendidas dentro d'água do mar cujo nível
ia até a janela, a mulher genitora os levava nos braços,
um a um, até a cama. Eram noites em que não
precisava contar-lhes histórias, entretidos que estiveram
até o esgotamento com as invenções que
o mar e a cantiga sugeriam.
Aconchegadas as crianças,
a mulher retornava à janela e, agachada à altura
dos filhos, olhos rentes ao peitoril, punha as vistas a se
perderem nas dobras noturnas das águas sob a lua. Se
em noites tais fazia calor, despia-se da camisola, saltava
para o mar, e resistia à força das águas
segura nos travões da janela. Gozando o poder de voltar
das tentações, ali esperava seu homem, que,
notando sua ausência no leito, viria resgatá-la
reluzente de lua e vestida de água.
Mulher e homem, genitores,
já com filhos suficientes se amavam e não engendravam
mais nenhum, celebravam, apenas, noturnos, o poder de seus
corpos. Depois contavam-se histórias que viviam, até
dormitarem, embalados pelo ritmo do prédio que, andares
muitos abaixo do mar e até a linha de suas janelas,
faziam flutuar com os sonhos nessas noites compartilhados.
Pela manhã,
efusivas, as crianças os despertaram. Correram à
janela e ao longe avistaram o velho pescador num barco, estranhamente
solitário, sem a força de um mais jovem. Uniram-se
aos filhos, num coro acalorado, até compreenderem que
o destino, impassível, passava ao largo. E a ternura
impotente que sentiram foi o que puderam. Aos olhos espantados
dos meninos, enquanto perdiam de vista o barco, responderam,
é a sorte do velho. E venceram o choro entretendo-se
com a ostra enganchada na janela e crustáceos que saltavam
mar afora pela casa.
Enquanto se alimentavam
em silêncio, à mesa o mais novo perguntara por
que uns vão de barco pela vida e a outros o mar regala
da janela. A pergunta tão inteligente só souberam
responder pela grandeza do menino: um dia era preciso atender
aos apelos do mar e cada um, como podia. O genitor quis acrescentar,
intuindo ter chegado a hora de instruir os filhos: os homens,
no mar, nada têm a oferecer; então se constrangem
ou se entregam.
Desde então,
todas as noites, a mulher genitora tinha o mesmo sonho. Paria
dentro do mar e, mal chamava o filho de seu, ele já
se perdia. Paria para saber, no mar, que era pedaço
e só desse modo plena, em seu corpo ilusão de
una o bastante para saber-se de si no que a ultrapassava.
A delicadeza das ondas, sonhos sobre sonhos, tinha o tamanho
de uma violência, modo das partes, plenas, serem. Paria
dentro do mar todos os filhos, do último ao primeiro,
crispada de horror e maravilha, inteira na parte que sempre
lhe coubera. Chorava, extensão salgada de mar, e era-se
toda e água.
Sonhos sobre noites
sobre sonhos sobre dias e noites, os filhos, uma a um, atendiam
aos apelos do mar. E encerraram-se os sonhos da mulher genitora
pouco depois do último filho anunciar, adulto, que
partiria. Resignada mas austera, como só sabem ser
as que pariram no mar, abençoou-o. Mas não se
despediu do filho, que deveria partir alta noite, em silêncio,
como um foragido, para a perda da mulher ser completa e não
diminuí-la: do tamanho do que podia a mulher.
A janela sempre aberta,
convite aos filhos desde a infância, conduzia ao quarto
o vento, que jamais fora vento marítimo mas o mar num
de seus muitos modos. Açoitando o sono da mulher, nas
profundezas vastamente horizontais dos sonhos, aconchegavam-na
em delicadeza de vagalhões.
Pela manhã,
ainda um pouco descorçoada, em luto decidido posto
necessário, sabia que o mar não levara seu filho:
partiram os dois, mar e moço, rastreados nos vestígios
dos odores marítimos e a roupa com cheiro de menino
macho.
O mar havia partido,
após uma geração de permanência
provisória. O sol incidia nas paredes e o vapor narcotizava
o amanhecer da mulher genitora, segura no luto, confiante
na plenitude da perda. Sorriu, constatando na insistência
dos odores o mar de hoje como lembrança, dádiva
às mulheres missionárias, reminiscência,
suspiro necessário para insistir na vida. A mulher
respirou, agraciada. E à medida em que tomava mar pelas
narinas, revigorava-lhe o ventre, parte tremeluzente das mulheres
genitoras para onde convergem as comunicações
possíveis e onde, por isso, o poder mundano se instaura.
Revigorado o ventre,
restituiu-se a vontade de entrega. A mulher se lembrou do
homem, a quem desejara dar-se uma vez mais. Criado, contudo,
o filho último, que há poucos partira com o
mar, a entrega nada lhe engendraria, cumprimento ritual apenas
de estarem mulher e homem feitos no mundo: o amor.
Enquanto aguardava
o homem, entretinha-se a mulher com ovos mexidos, fervura
do leite a derramar sobre fogo brando sinalizando abundância.
E era parte desse sutil movimento que descesse ao térreo,
onde adivinhava o homem e juntos refestelassem, previamente,
o cumprimento ritual das núpcias de mulher e homem
feitos no mundo.
No térreo
o homem enxugava gravetos e expunha-nos ao sol recém-nascido.
O fogo inaugural reinstaurado, nos tempos de terra, de mar
ausente. À noite mulheres e homens chegariam, para
contar histórias, igualmente diferentes das de todos
que viveram o mar no seu tempo.
A relva cresceria
em volta ao prédio e o cultivo de plantas por vezes
os poria em contato com vestígios, conchas, barbatanas,
seixos do tempo marítimo, entre flores e veludos vegetais.
Uma consistência de mato frágil mas enraizado,
raízes percorrendo quem sabe onde águas não
tocaram, anunciavam a um só tempo placidez e ventania
de beija-flores.
Até o dia
em que jovens genitoras anunciassem novamente as águas,
escorridas do ventre, entre fendas jubilosas comunicadas às
escolhas da entrega de reencontro ao mar.
Mas o mar é
sábio. Cíclico. Sabia retirar-se ao tempo em
que trazia jovens homens e os fincava à terra, altivos,
onde viessem recebê-los jovens moças, grávidas
do tempo marítimo. Corpos feitos, construídos
pelo mar, torsos nus talhados a sal, água e vento.
O amor cingia o fogo
dos gravetos, esturricados pelo sol recém-nascido.
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