Tempos & Territórios


                                 Reni Adriano

 

 

Terra, mar ausente

                                 A Maria Regina Oliveira de Araújo

                                                                  "E assim vou
                                                                  com a fremente mão do mar em minhas coxas"
                                                                  (Olga Savary, Ycatu)

A água nunca nos afoga, nós é que morremos nela. Debruçados no parapeito os meninos repetiam a velha cantilena, inventada no começo dos tempos. Quando, de tanto ver o mar, a sabedoria da língua era tê-la descansada na boca, no silêncio reverberava a cantiga, indefinidamente, vezes muitas e simultâneas que nem o pensamento ágil das crianças podia acompanhar: a água nunca nos afoga, nós é que morremos nela. Às vezes seguiam nesse ritmo até os meandros do sono, quando então em profundezas oníricas, boquiabertos, mãos pendidas dentro d'água do mar cujo nível ia até a janela, a mulher genitora os levava nos braços, um a um, até a cama. Eram noites em que não precisava contar-lhes histórias, entretidos que estiveram até o esgotamento com as invenções que o mar e a cantiga sugeriam.

Aconchegadas as crianças, a mulher retornava à janela e, agachada à altura dos filhos, olhos rentes ao peitoril, punha as vistas a se perderem nas dobras noturnas das águas sob a lua. Se em noites tais fazia calor, despia-se da camisola, saltava para o mar, e resistia à força das águas segura nos travões da janela. Gozando o poder de voltar das tentações, ali esperava seu homem, que, notando sua ausência no leito, viria resgatá-la reluzente de lua e vestida de água.

Mulher e homem, genitores, já com filhos suficientes se amavam e não engendravam mais nenhum, celebravam, apenas, noturnos, o poder de seus corpos. Depois contavam-se histórias que viviam, até dormitarem, embalados pelo ritmo do prédio que, andares muitos abaixo do mar e até a linha de suas janelas, faziam flutuar com os sonhos nessas noites compartilhados.

Pela manhã, efusivas, as crianças os despertaram. Correram à janela e ao longe avistaram o velho pescador num barco, estranhamente solitário, sem a força de um mais jovem. Uniram-se aos filhos, num coro acalorado, até compreenderem que o destino, impassível, passava ao largo. E a ternura impotente que sentiram foi o que puderam. Aos olhos espantados dos meninos, enquanto perdiam de vista o barco, responderam, é a sorte do velho. E venceram o choro entretendo-se com a ostra enganchada na janela e crustáceos que saltavam mar afora pela casa.

Enquanto se alimentavam em silêncio, à mesa o mais novo perguntara por que uns vão de barco pela vida e a outros o mar regala da janela. A pergunta tão inteligente só souberam responder pela grandeza do menino: um dia era preciso atender aos apelos do mar e cada um, como podia. O genitor quis acrescentar, intuindo ter chegado a hora de instruir os filhos: os homens, no mar, nada têm a oferecer; então se constrangem ou se entregam.

Desde então, todas as noites, a mulher genitora tinha o mesmo sonho. Paria dentro do mar e, mal chamava o filho de seu, ele já se perdia. Paria para saber, no mar, que era pedaço e só desse modo plena, em seu corpo ilusão de una o bastante para saber-se de si no que a ultrapassava. A delicadeza das ondas, sonhos sobre sonhos, tinha o tamanho de uma violência, modo das partes, plenas, serem. Paria dentro do mar todos os filhos, do último ao primeiro, crispada de horror e maravilha, inteira na parte que sempre lhe coubera. Chorava, extensão salgada de mar, e era-se toda e água.

Sonhos sobre noites sobre sonhos sobre dias e noites, os filhos, uma a um, atendiam aos apelos do mar. E encerraram-se os sonhos da mulher genitora pouco depois do último filho anunciar, adulto, que partiria. Resignada mas austera, como só sabem ser as que pariram no mar, abençoou-o. Mas não se despediu do filho, que deveria partir alta noite, em silêncio, como um foragido, para a perda da mulher ser completa e não diminuí-la: do tamanho do que podia a mulher.

A janela sempre aberta, convite aos filhos desde a infância, conduzia ao quarto o vento, que jamais fora vento marítimo mas o mar num de seus muitos modos. Açoitando o sono da mulher, nas profundezas vastamente horizontais dos sonhos, aconchegavam-na em delicadeza de vagalhões.

Pela manhã, ainda um pouco descorçoada, em luto decidido posto necessário, sabia que o mar não levara seu filho: partiram os dois, mar e moço, rastreados nos vestígios dos odores marítimos e a roupa com cheiro de menino macho.

O mar havia partido, após uma geração de permanência provisória. O sol incidia nas paredes e o vapor narcotizava o amanhecer da mulher genitora, segura no luto, confiante na plenitude da perda. Sorriu, constatando na insistência dos odores o mar de hoje como lembrança, dádiva às mulheres missionárias, reminiscência, suspiro necessário para insistir na vida. A mulher respirou, agraciada. E à medida em que tomava mar pelas narinas, revigorava-lhe o ventre, parte tremeluzente das mulheres genitoras para onde convergem as comunicações possíveis e onde, por isso, o poder mundano se instaura.

Revigorado o ventre, restituiu-se a vontade de entrega. A mulher se lembrou do homem, a quem desejara dar-se uma vez mais. Criado, contudo, o filho último, que há poucos partira com o mar, a entrega nada lhe engendraria, cumprimento ritual apenas de estarem mulher e homem feitos no mundo: o amor.

Enquanto aguardava o homem, entretinha-se a mulher com ovos mexidos, fervura do leite a derramar sobre fogo brando sinalizando abundância. E era parte desse sutil movimento que descesse ao térreo, onde adivinhava o homem e juntos refestelassem, previamente, o cumprimento ritual das núpcias de mulher e homem feitos no mundo.

No térreo o homem enxugava gravetos e expunha-nos ao sol recém-nascido. O fogo inaugural reinstaurado, nos tempos de terra, de mar ausente. À noite mulheres e homens chegariam, para contar histórias, igualmente diferentes das de todos que viveram o mar no seu tempo.

A relva cresceria em volta ao prédio e o cultivo de plantas por vezes os poria em contato com vestígios, conchas, barbatanas, seixos do tempo marítimo, entre flores e veludos vegetais. Uma consistência de mato frágil mas enraizado, raízes percorrendo quem sabe onde águas não tocaram, anunciavam a um só tempo placidez e ventania de beija-flores.

Até o dia em que jovens genitoras anunciassem novamente as águas, escorridas do ventre, entre fendas jubilosas comunicadas às escolhas da entrega de reencontro ao mar.

Mas o mar é sábio. Cíclico. Sabia retirar-se ao tempo em que trazia jovens homens e os fincava à terra, altivos, onde viessem recebê-los jovens moças, grávidas do tempo marítimo. Corpos feitos, construídos pelo mar, torsos nus talhados a sal, água e vento.

O amor cingia o fogo dos gravetos, esturricados pelo sol recém-nascido.

 

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É natural de Santa Luzia (MG), novembro de 1981. Aos 15 anos cultua Legião Urbana e Carlos Drummond de Andrade. Aos 17 frequenta a Oficina Literária do Centro Cultural Diadema. Aos 22 é mediador do Círculo de Leitura do Instituto Fernand Braudel, São Paulo.
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