Tempos & Territórios


                                 Ricardo Gomes Pereira

 

 

Para ontem nos vamos agora

         Realmente esta viagem vem sendo excelente. Poder contemplar este espetáculo: a noite ganhando o braço de ferro das horas, e o mar, que parece temer a noite, pois cada vez se agita mais. O cheiro do peixe frito já me lembra o cuscuz, que logo será servido. Olho para o livro fechado. Coitado. Mas eu queria férias de tudo, de meu próprio eu, assim abandonei meus hábitos, até mesmo os mais caros, para vir morar na casa de estranhos, num lugar longe de tudo. Afinal, de que adianta viajar, e conhecer locais domésticos, no meu caso fugi de todo e qualquer asfalto; custei para chegar até esta aldeiazinha, e agora sinto o lugar e seus habitantes, que em primeiro momento me recusaram, depois disse que era Doutor, e eles me aceitaram, com a condição de morar junto do velho Amiard e sua esposa, estou no quarto do filho deles que caiu num poço. Uso o quarto apenas para guardar minhas roupas pois eles conservam o quarto do filho e embaixo da cama cavaram um poço, acreditam que de noite o garoto sai do poço e vem dormir no quarto. Tenho uma bela amizade com Amiard, já lhe ensinei a canção da mais-valia e xadrez.
         Viver os hábitos de um lugar é se apropriar deles e destruí-los um pouco.
         Ondas invadem nossa casa! Não... É uma criança que balança a balançável cadeira.
         - Venha logo, chamam o senhor na casa de Majerio.
         Se eu realmente fosse médico pegaria minha pasta, contendo meus inseparáveis materiais, mas... Como fui pego de surpresa acabei esquecendo. Acho difícil alguém perceber isto. Em todo caso. Chegamos. A casa deste senhor é uma das mais pobres que já vi. Sem muito trabalho percebo que ele está morto. Partindo de observações, suponho que ele tenha tido um infarto fulminante. Seu peito aparenta inchaço e no rosto uma mistura de horror e dor. Pego o pulso, não posso apenas olhar e dizer: tá morto. Mexo no pescoço. Sinto seu corpo frio. Viro para aquela sombra à esquerda e digo o que já era esperado. A sombra estoura e de seu casulo sai uma jovem, nem bonita nem feia, que já havia contemplado na feira, de mãos dadas com o mais próximo cadáver da aldeia: seu pai. Ela tem dezessete anos, mas não aparenta, em absoluto. Ela se aproxima de mim, seu perfume não existe, e em seus olhos nenhuma lágrima. Os acontecimentos se nublam e ela me abraça. Não, não espera nenhum consolo, começa a me beijar. Resisto e afasto-a. Talvez seja conseqüência do acontecido. Ela então diz:
         - Serás meu.
         Saio, sem me preocupar com o ocorrido, tentando esquecer, aqueles lábios delicados, aquele cheiro puro sem artifícios. No caminho concluo que este passeio aqui tem seu fim. Logo podem descobrir que não sou doutor merda nenhuma. Chegando na casa que aluguei, disposto a arrumar minhas malas, encontro um revólver em cima do silencioso criado mudo.Entram alguns policiais e me dão voz de prisão. Ainda confuso sou levado sem maiores problemas para a delegacia. Descubro na delegacia que aquele homem não morreu de infarto, uma bala entrou em suas costas justo no local do coração, daí o inchaço. A falta de sangue e a limpeza do morto, parecem não merecer uma investigação mais detalhada. Na delegacia descubro também que sou motivo de horror popular e que neste fim de mundo eles condenam pessoas à morte, sim, a lei de Talião aqui é respeitada. No fundo não me importo, vivo os momentos e me sinto feliz, pensando bem, quantos podem ter um final tão estranho quanto este, a morte é o momento mais inédito da vida e a minha não será banal.
         Os guardas me conduzem até minha cela. Nestes arredores existe apenas uma cela, também, com leis tão esdrúxulas, pudera! Na cela, acendo um cigarro e sento. Vejo então uma sombra se mover e novamente a filha do morto. Ela olha para mim e diz:
         - Não disse que tu serias meu?
         Nos abraçamos.
         Amanhã antes de meu fatal destino serei este agora.

 

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Ricardo Gomes Pereira é músico e poeta de Diadema, entre seus textos publicados constam poemas no fanzine Careta Furiosa 1997 (PMD ), cadernos de Cultura 1999 (PMD ), Mapa Cultural Paulista, 2002 ( SP ). Vencedor da Mostra de Artes de Diadema 2002 e prêmio de edição no Mapa Cultural Paulista.
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