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Realmente
esta viagem vem sendo excelente. Poder contemplar este espetáculo:
a noite ganhando o braço de ferro das horas, e o mar,
que parece temer a noite, pois cada vez se agita mais. O cheiro
do peixe frito já me lembra o cuscuz, que logo será
servido. Olho para o livro fechado. Coitado. Mas eu queria
férias de tudo, de meu próprio eu, assim abandonei
meus hábitos, até mesmo os mais caros, para
vir morar na casa de estranhos, num lugar longe de tudo. Afinal,
de que adianta viajar, e conhecer locais domésticos,
no meu caso fugi de todo e qualquer asfalto; custei para chegar
até esta aldeiazinha, e agora sinto o lugar e seus
habitantes, que em primeiro momento me recusaram, depois disse
que era Doutor, e eles me aceitaram, com a condição
de morar junto do velho Amiard e sua esposa, estou no quarto
do filho deles que caiu num poço. Uso o quarto apenas
para guardar minhas roupas pois eles conservam o quarto do
filho e embaixo da cama cavaram um poço, acreditam
que de noite o garoto sai do poço e vem dormir no quarto.
Tenho uma bela amizade com Amiard, já lhe ensinei a
canção da mais-valia e xadrez.
Viver
os hábitos de um lugar é se apropriar deles
e destruí-los um pouco.
Ondas
invadem nossa casa! Não... É uma criança
que balança a balançável cadeira.
-
Venha logo, chamam o senhor na casa de Majerio.
Se
eu realmente fosse médico pegaria minha pasta, contendo
meus inseparáveis materiais, mas... Como fui pego de
surpresa acabei esquecendo. Acho difícil alguém
perceber isto. Em todo caso. Chegamos. A casa deste senhor
é uma das mais pobres que já vi. Sem muito trabalho
percebo que ele está morto. Partindo de observações,
suponho que ele tenha tido um infarto fulminante. Seu peito
aparenta inchaço e no rosto uma mistura de horror e
dor. Pego o pulso, não posso apenas olhar e dizer:
tá morto. Mexo no pescoço. Sinto seu corpo frio.
Viro para aquela sombra à esquerda e digo o que já
era esperado. A sombra estoura e de seu casulo sai uma jovem,
nem bonita nem feia, que já havia contemplado na feira,
de mãos dadas com o mais próximo cadáver
da aldeia: seu pai. Ela tem dezessete anos, mas não
aparenta, em absoluto. Ela se aproxima de mim, seu perfume
não existe, e em seus olhos nenhuma lágrima.
Os acontecimentos se nublam e ela me abraça. Não,
não espera nenhum consolo, começa a me beijar.
Resisto e afasto-a. Talvez seja conseqüência do
acontecido. Ela então diz:
-
Serás meu.
Saio,
sem me preocupar com o ocorrido, tentando esquecer, aqueles
lábios delicados, aquele cheiro puro sem artifícios.
No caminho concluo que este passeio aqui tem seu fim. Logo
podem descobrir que não sou doutor merda nenhuma. Chegando
na casa que aluguei, disposto a arrumar minhas malas, encontro
um revólver em cima do silencioso criado mudo.Entram
alguns policiais e me dão voz de prisão. Ainda
confuso sou levado sem maiores problemas para a delegacia.
Descubro na delegacia que aquele homem não morreu de
infarto, uma bala entrou em suas costas justo no local do
coração, daí o inchaço. A falta
de sangue e a limpeza do morto, parecem não merecer
uma investigação mais detalhada. Na delegacia
descubro também que sou motivo de horror popular e
que neste fim de mundo eles condenam pessoas à morte,
sim, a lei de Talião aqui é respeitada. No fundo
não me importo, vivo os momentos e me sinto feliz,
pensando bem, quantos podem ter um final tão estranho
quanto este, a morte é o momento mais inédito
da vida e a minha não será banal.
Os
guardas me conduzem até minha cela. Nestes arredores
existe apenas uma cela, também, com leis tão
esdrúxulas, pudera! Na cela, acendo um cigarro e sento.
Vejo então uma sombra se mover e novamente a filha
do morto. Ela olha para mim e diz:
-
Não disse que tu serias meu?
Nos
abraçamos.
Amanhã
antes de meu fatal destino serei este agora.
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