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o feérico
é um jardim carnívoro, romântico,
de flores
negras & narcóticas revoltas pelos temporais de
luz da
luxúria
desta noite verde & visceral em
que a primavera da relva crepitava nos
clarões
de nossas carnes
& quando a lua avistada da janela
do meu chalé na floresta fez lembrar
um amuleto
de dente de lobo
o dia veio dourado & eu celebro
por aqueles que acreditam que o amor
nada tenha
a ganhar ao não mudar de aparência
mas que a solidão não
tenha senão a perder ao não firmar seu pacto
de
continuidade
com antigas linhagens de bruxos
& o que dizer das árvores,
eu que moro entre raízes de árvores
com os ouvidos colados ao chão
para escutar em seus intestinos a
pavana colorida
dos ossos dos defuntos que se afundam
nas camas
encharcadas da terra
nesta cabana onde todas as noites
a alma de minha bisavó índia del
Gran Chaco
vem discutir à meia-voz com o fantasma de meu
bisavô
aventureiro de Veneza
a respeito dos trançados incaicos
das cestarias de coca & das mandalas
bizantinas
dos tapetes do oriente
considerando que nada que não
seja inumano possa de fato interessar
à terceira
& última geração de sua estirpe
nada que não seja como uma
viagem a lançar uma rápida rajada de luz
em minhas
têmporas
(ou então uma letárgica
& silenciosa descida plutoniana através da
Grande Fenda
Úmida)
& tudo o que já foi falado
da vida amorosa das orquídeas após o
movimento
vertical das facas repletas de mariposas
castanhas
agora já não faz senão
celebrar nas campanas o pólen dourado dos hinos
à noite
dos monastérios que juram silêncio sobre suas
orgias de
penugem
porque o feérico é um
jardim carnívoro, romântico; & suas trilhas
são
tão prenhes de espíritos que somente os mais
idiotas
podem deixar
de tropeçar em seus cipós emaranhados
que murmuram na língua dos
quatro elementos aquilo que estaria
tatuado na
pele de nossas existências através da louca
geometria
das reencarnações
(para além de acaso & necessidade)
pelos portais recobertos de heras,
líquens,
fungos em troncos apodrecidos, nas brechas da
Dupla Volúpia:
a auréola negra da liberdade
absoluta de nossas lentas germinações
obscuras,
luminosas
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