Tempos & Territórios


                                 Rubens Zárate

 

Da poesia romãntica

                                 para Cláudio Willer

                 je vois le lutin que d'un ongle te mets en liberté
                                                                    André Breton

o feérico é um jardim carnívoro, romântico,
        de flores negras & narcóticas revoltas pelos temporais de luz da
        luxúria

desta noite verde & visceral em que a primavera da relva crepitava nos
        clarões de nossas carnes

& quando a lua avistada da janela do meu chalé na floresta fez lembrar
        um amuleto de dente de lobo

o dia veio dourado & eu celebro por aqueles que acreditam que o amor
        nada tenha a ganhar ao não mudar de aparência

mas que a solidão não tenha senão a perder ao não firmar seu pacto de
        continuidade com antigas linhagens de bruxos

& o que dizer das árvores, eu que moro entre raízes de árvores

com os ouvidos colados ao chão para escutar em seus intestinos a
        pavana colorida dos ossos dos defuntos que se afundam
        nas camas encharcadas da terra

nesta cabana onde todas as noites a alma de minha bisavó índia del
        Gran Chaco vem discutir à meia-voz com o fantasma de meu
        bisavô aventureiro de Veneza

a respeito dos trançados incaicos das cestarias de coca & das mandalas
        bizantinas dos tapetes do oriente

considerando que nada que não seja inumano possa de fato interessar
        à terceira & última geração de sua estirpe

nada que não seja como uma viagem a lançar uma rápida rajada de luz
        em minhas têmporas

(ou então uma letárgica & silenciosa descida plutoniana através da
        Grande Fenda Úmida)

& tudo o que já foi falado da vida amorosa das orquídeas após o
        movimento vertical das facas repletas de mariposas
        castanhas

agora já não faz senão celebrar nas campanas o pólen dourado dos hinos
        à noite dos monastérios que juram silêncio sobre suas
        orgias de penugem

porque o feérico é um jardim carnívoro, romântico; & suas trilhas
        são tão prenhes de espíritos que somente os mais idiotas
        podem deixar de tropeçar em seus cipós emaranhados

que murmuram na língua dos quatro elementos aquilo que estaria
        tatuado na pele de nossas existências através da louca
        geometria das reencarnações

(para além de acaso & necessidade) pelos portais recobertos de heras,
        líquens, fungos em troncos apodrecidos, nas brechas da
        Dupla Volúpia:

a auréola negra da liberdade absoluta de nossas lentas germinações
        obscuras,
                               luminosas

 

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Rubens Zárate nasceu em 1960. No final dos anos 70 editou três livrinhos independentes de poesia, deixando de publicar desde então. Nos anos seguintes escreveu as coletâneas Haxixe Rimbaud (1981), Tripas (1982-89), Bárbara & Arcana (1994), Contemplações Panfletárias (1995-96), Língua de Lagarto (1998-2000). Traduziu poemas de Blake, Rimbaud, Breton, Péret, Ginsberg, Gary Snyder, Jim Morrisonn, entre outros.

Em Diadema, entre 1995 e 97, através do Depto. de Cultura da PMD, criou o Acervo de Arte & Poesia, implantou as primeiras oficinas de criação literária, ministrou a Oficina Avançada de Poesia Contemporânea e editou a publicação Careta Furyoza, que lançou diversos autores locais; participou também da Mostra de Artes/2003 com sua primeira experiência em prosa narrativa.
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