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Tirei o paletó, fiz uma trouxa
e dei-lhe como travesseiro
meu amigo tempo.
(Nada nele era implorante ou ameaçador)
E, assim, meio desperto, meio sonado, ele balbuciou:
-Perdi dimensões, malassombros, rápido como
línguas
de sapos, lento como bancos de praça. Sou seu tempo.
Você embarcou, numa leva para a vida;
À medida que um alto-falante anunciava:
"Bem-vindos passageiros, para a morte e escalas..."
(ao menos sabe que a feiúra é a
única realidade...)
Distante fique daqueles que dão lamentáveis
E mal-ensaiados shows de charme e vaidade
Se faça tranquilo, dileto amigo,
Beba uísque puro com gelo;
depois do terceiro, acredite,
vai desfiar coisas soltas da sua alma
(de tal ternura que vai até duvidar)
Guarde, por fim, boas saudades
de você, de mim.
Sou seu tempo.
Agora, não me apoquente mais.
Deixe-me, por favor,
livre, passar...
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