Tempos Perplexos

Prefácio "Tempos Perplexos - Poética Social": Cláudio Willer
 
Antologia "Tempos Perplexos" realização do Departamento de Cultura de Diadema
Concepção, seleção, organização: Beth Brait Alvim
Prefácio: Cláudio Willer
Revisão: Beth Brait Alvim, Juscilene Araujo Monteiro e Rubens Zárate
Capa: Casé
 
Autores: A. Smero, Arildo Correia Lima, Cleibson Carlos, Edilson de Jesus, Edson Aquino, Fausto da Silva, Francisco Heraldo B Felipe, José Geraldo Neres, Juan Carlos Rodriguez Latorre, Marcelo Santana, Maria Regina Oliveira de Araújo, Murillo Kollek, Paula Barbosa, Pedro Paulo dos Santos, Radi Oliveira, Reni Adriano, Zida S.O., Zózimo Adeodato
 
Agradecimentos: Grupo Palavreiros, União Brasileira de Escritores, Cláudio Willer, Núcleo de Divulgação e Equipe do Centro Cultural Diadema

Prefácio "Tempos Perplexos - Poética Social": Cláudio Willer


Este início de século, o primeiro do segundo milênio, dá a impressão de ser um oposto diametral de outro início, aquele de um século atrás. Mais precisamente, temos o refluxo de algo que se afirmou, de modo enfático, há quase cem anos: a revolução, a ruptura com a ordem econômica e política, a aparente instauração de uma nova sociedade, quando não de um novo mundo.

Refiro-me, é claro, ao conjunto de acontecimentos que resultaram, entre outras conseqüências, na revolução soviética de 1917. Mesmo que os dias de hoje não tenham nada a ver, diretamente, com aqueles, convém, a propósito de Tempos Perplexos, trazer à tona a discussão sobre a função da arte, a relação entre poesia e revolução, política e sociedade, que marcou o período revolucionário. Não perde atualidade por uma razão muito simples: o interesse da discussão não é restrito àquele contexto.

Questões como a da arte de mensagem ou de criação livre, populismo versus elitismo, engajado contra o alienado, esteticismo ou praxis, foram discutidas nos séculos XVIII e XIX e atravessaram o século XX. Contudo, pelo caráter dramático que adquiriram no imediato pós-17, na seqüência do outubro soviético, deram ocasião a documentos de especial importância. Um deles é o conjunto de reflexões e ensaios reunidos em Literatura e Revolução, de Leon Trotsky. Lembrando: mesmo na linha de frente do governo soviético, antes de tornar-se um dissidente e um perseguido, Trotsky procurava valorizar a liberdade de criação, e mantinha uma posição de eqüidistância tanto do populismo, para ele empobrecedor ao descartar a herança cultural ocidental e sancionar uma cultura da miséria, quanto do formalismo, que corresponderia a um caminho árido, ao substituir valores humanos e estéticos pela estatística. Criticando a burocratização da arte “por meio de decretos e de prescrições”, observava: “É falso que só consideramos nova e revolucionária a arte que só fala de operários. (...) O lirismo pessoal, incontestavelmente, tem o direito de existir na nova arte, por menor que seja sua esfera de ação. Ainda mais, o novo homem não poderá formar-se sem um novo lirismo. Para criá-lo, no entanto, o próprio poeta deve sentir o mundo de um novo modo”.

Outro período em que se tinha a impressão de que o mundo iria mudar foi aquele da contracultura e rebeliões juvenis dos anos 60. O poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz pode ser associado a esse ciclo, por haver feito o elogio, em várias ocasiões, das rebeliões juvenis que culminaram no Maio de 68 e, para ele, “reintroduziram a cifra do prazer na política”. E por haver valorizado as idéias de revolta e rebelião, diante daquela de revolução.

Deixou-nos ainda Octavio Paz algumas páginas extraordinárias sobre a relação entre poesia e política. Examinou, em Los Hijos del Limo e tantas de suas obras, os poetas que, começando como progressistas e revolucionários, acabaram, decepcionados, como reacionários. Exemplo máximo, Baudelaire, que, sendo reacionário em sua crítica da democracia burguesa, deixou uma herança revolucionária ao transformar nossa percepção, não só da literatura e das artes, mas da sociedade e do mundo. Além disso, Paz não economizou críticas a autores que, em um aparente movimento oposto colocaram sua arte a serviço da revolução, como veículo de mensagens, acabando por rebaixá-la ao torná-a prosaica ou sectária. Incluiu nessa categoria ninguém menos que Neruda e Eluard, entre outros grandes nomes.

Em um de seus últimos livros, A outra voz, espécie de sinopse ou testamento de seu pensamento sobre poesia, Octavio Paz voltou a perguntar: “Qual pode ser a contribuição da poesia na reconstituição de um novo pensamento político? Não idéias e sim alguma coisa mais preciosa e frágil: a memória. A cada geração os poetas redescobrem a terrível antigüidade e a não menos terrível juventude das paixões.” Sua resposta é clara: “Pela boca do poeta fala – advirto: fala, não escreve – a outra voz. É a voz do poeta trágico e a do bufão, da solitária melancolia e da festa, é a risada e o suspiro, a voz do abraço dos amantes e a de Hamlet diante do crânio, a voz do silêncio e a do tumulto, louca sabedoria e sensata loucura, sussurro de confidência na alcova e cheiro de multidão na praça.”

Essa outra voz não é audível por todos, e não irá necessariamente atingir o grande público. Citando-o novamente: “...um dos traços característicos da poesia moderna é sua decidida vontade minoritária. Na primeira metade do século passado todos os grandes românticos europeus tentaram conquistar um vasto público de leitores; alguns conseguiram, como Byron, Hugo e Lamartine. Depois, à medida que a grande chama romântica se apagou, os poetas se retiraram da cena pública. Desde os grandes simbolistas, a poesia tem sido rebelião solitária, subversão no subsolo da linguagem e da história. Nenhum dos poetas que inauguraram a modernidade procurou a aprovação da maioria; todos, ao contrário, escolheram de modo deliberado escrever contra o gosto do público. Rimbaud e seus herdeiros da primeira metade do século XX ilustram um aspecto dessa tendência; a outra, mais puramente estética, é a de Mallarmé e seus seguidores”.

Dispõe-se, portanto, a navegar contra a corrente os participantes de Tempos Perplexos e da oficina literária que originou esta publicação. Alguns dos seus autores, como Juan Carlos Latorre, Edson Aquino e Radi Oliveira, quase desenvolvem uma argumentação, ao buscarem, através do poema, uma descrição de aspectos do mundo que os cerca. Outros, como José Geraldo Neres, expressam o que se passa em sua subjetividade, os sentimentos e emoções diante do que ocorre ao seu redor. Seguem, portanto, a trilha romântica, mesmo adotando a forma aberta, moderna, em alguns até o texto em prosa, com um formato de crônica ou prosa poética. E outros ainda, a exemplo da própria coordenadora do trabalho, Beth Brait Alvim, querem, não a representação ou descrição, mas uma apresentação, uma transcrição literária de um mundo fragmentado, desconexo, através de uma escrita igualmente fragmentária, com palavras soltas, rompendo nexos sintáticos.

A tônica dominante nesses trabalhos é a expressão da perplexidade, justificando o título da coletânea, associada a outros sentimentos e emoções: a revolta, a piedade, o susto, o desgosto. Eles se traduzem através de uma diversidade de modos de escrever, estilos e gêneros, permitindo afirmar que essa coletânea, embora tenda à unidade temática, surge sob o signo da pluralidade de soluções literárias. Certamente, muitos percorrerão o caminho que vai dessas manifestações enfáticas até a emissão da outra voz, comentada acima. A continuidade de iniciativas como essa oficina literária, a publicação de seus resultados, possibilitando o debate, a crítica e, principalmente, sua fruição, será decisiva para que se avance por essa trilha. Isso, pelo que as oficinas trazem de possibilidade de interação, de troca de experiências e informações entre aqueles que criam. E por seu estímulo à leitura, à tão necessária, como já assinalava o autor de Literatura e Revolução, assimilação de toda uma herança cultural, da qual fazem parte autores rebeldes e malditos, contemporâneos e de outras épocas.

Pelo que já foi realizado, e pelas perspectivas abertas, ao se disporem a prosseguir esse trabalho, estão de parabéns as pessoas e as instituições responsáveis por este Tempos Perplexos.


Claudio Willer



alguns poemas da antologia "Tempos Perplexos"

 

Genocídio
                  A Smero

A ti, Joana D'Arc da metrópole
Luta contra teus algozes governantes,
Acolhe em teu peito a chama flamejante
Paga-lhes com a vida, teus podres tributos
Arde em fogo eterno...

Indignas
            Joanas morrem nesta metrópole
            Anos, dias, horas...


Diamante
                       Beth Brait Alvim


"...para tecer meu místico diadema preciso fora impor os
tempos e universos" Bénédiction, Charles Baudelaire

irmão de sangue
mídia moeda câncer
ouro negro indigente
silicone seringas agulhas
destilados farinha pedra
celulite anabolizantes
e fome.
males dos tempos...
século XX?
veias abiertas
vírus filas antraz lixo tóxico
gastrites síndromes hospitais
mais?
HIV INSS TPM CPMF MP FMI
e todo way of life
todo USA
e qualquer SNI
e todo vil homem mandado
e toda fé filha do medo
e ainda
guerra civil carandiru hospício
migrante febem comício
imagem cingapura clonagem
cativeiro candelária imagem
                                        depressão...

patativa do assaré
becos de goiás
ipiranga e avenida são joão
banzo de tristes trópicos
                                        males do século...
estufa holocausto
câmaras de ozônio e gás...
cadeiras elétricas torres e igrejas
                                        via crucis
indulgências edemas...
favelas mangue sertão
trabalho escravo
farto sangue irmão
                                        depressão
e voyeurismo
fetichismo
fanatismo
cinismo
neoliberalismo
consumismo
ceticismo
                                       ...ismos, ismos...

caras e bundas e anorexia...
anfetamina hipocondria esquizofrenia
a coca o crack o ecstasy
nets chats and hakers
                                       ...fobia, fobia...
e pedofilia...
crianças sexuais televiciadas
extinção...

ah! e o serial killer de centavos de reais...

um e outros
rubro e grosso edema carnal
tal catchup na mesa
vasilhame plástico em promoção
vermelho grosseiro
escuras carreiras
em eterna combustão

                                        veias abiertas...


II

ah! mérica...
my self é distante...
mix global de faturas
acéfalo quebra-cabeças
multisuturas...

ah! mantikir
serra-matas e mortalhas
dores e ardores seculares
daqui e donde vim
                                         onde?

III

ah! mantikir
minha mantiqueira serra
goteja lágrimas de atlânticas eras
e banha ninfa ilha que cedo serena
                                         desvairada diadema
e
muito depois deste século
duas terras-rubro-latino-pulsantes
cravam no solo urgente
                                         diamante
gotejam sangue

transfusão
de poemas


beth brait alvim, são josé dos campos/diadema 1999-2002


Senzala
                      Cleibson Carlos

feia escultura de madeira oca.
farta ceia de cupins famintos
alvenaria à margem da arquitetura
à deriva da veloz cibernética
moldura pós-apocalíptica
senzala pós-moderna.


Espólio
               José Geraldo Neres

dentro da sucata errante
uma criança
veste
o inverno impalpável
zomba do futuro
diverte-se
sobre o cavalo branco
de crinas douradas
contornando
linhas de produção
obsoletas
aos olhos

da prata...


Astronauta
                   Juan Carlos Latorre


inerte caminhante
do universal cemitério
onde perambulam peixes mortos
em forma de sucata.

as vozes se multiplicam
em falecidos ecos inumanos
furiosos ventos desaparecem
engolidos pelo nada.

vísceras esticadas
os negros cérebros acéfalos
elucidam o tormento
dos deuses.

Roceiro
                    Radi Oliveira


pela janela do meu rosto
céu carrega meu desejo
terra nua quente
boca abre
pede beijos
céu aperta no peito
nuvens caem
como lágrimas
terra sobe
desabafada
fecho os olhos
terço-semente
sorrindo verde
joelhos vestidos de terra
embriagada.

 

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