Prefácio
"Tempos Perplexos - Poética Social": Cláudio
Willer
Este início
de século, o primeiro do segundo milênio, dá
a impressão de ser um oposto diametral de outro início,
aquele de um século atrás. Mais precisamente,
temos o refluxo de algo que se afirmou, de modo enfático,
há quase cem anos: a revolução, a ruptura
com a ordem econômica e política, a aparente
instauração de uma nova sociedade, quando não
de um novo mundo.
Refiro-me, é claro, ao conjunto
de acontecimentos que resultaram, entre outras conseqüências,
na revolução soviética de 1917. Mesmo
que os dias de hoje não tenham nada a ver, diretamente,
com aqueles, convém, a propósito de Tempos Perplexos,
trazer à tona a discussão sobre a função
da arte, a relação entre poesia e revolução,
política e sociedade, que marcou o período revolucionário.
Não perde atualidade por uma razão muito simples:
o interesse da discussão não é restrito
àquele contexto.
Questões como a da arte de mensagem
ou de criação livre, populismo versus elitismo,
engajado contra o alienado, esteticismo ou praxis, foram discutidas
nos séculos XVIII e XIX e atravessaram o século
XX. Contudo, pelo caráter dramático que adquiriram
no imediato pós-17, na seqüência do outubro
soviético, deram ocasião a documentos de especial
importância. Um deles é o conjunto de reflexões
e ensaios reunidos em Literatura e Revolução,
de Leon Trotsky. Lembrando: mesmo na linha de frente do governo
soviético, antes de tornar-se um dissidente e um perseguido,
Trotsky procurava valorizar a liberdade de criação,
e mantinha uma posição de eqüidistância
tanto do populismo, para ele empobrecedor ao descartar a herança
cultural ocidental e sancionar uma cultura da miséria,
quanto do formalismo, que corresponderia a um caminho árido,
ao substituir valores humanos e estéticos pela estatística.
Criticando a burocratização da arte por
meio de decretos e de prescrições, observava:
É falso que só consideramos nova e revolucionária
a arte que só fala de operários. (...) O lirismo
pessoal, incontestavelmente, tem o direito de existir na nova
arte, por menor que seja sua esfera de ação.
Ainda mais, o novo homem não poderá formar-se
sem um novo lirismo. Para criá-lo, no entanto, o próprio
poeta deve sentir o mundo de um novo modo.
Outro período em que se tinha
a impressão de que o mundo iria mudar foi aquele da
contracultura e rebeliões juvenis dos anos 60. O poeta
e ensaísta mexicano Octavio Paz pode ser associado
a esse ciclo, por haver feito o elogio, em várias ocasiões,
das rebeliões juvenis que culminaram no Maio de 68
e, para ele, reintroduziram a cifra do prazer na política.
E por haver valorizado as idéias de revolta e rebelião,
diante daquela de revolução.
Deixou-nos ainda Octavio Paz algumas
páginas extraordinárias sobre a relação
entre poesia e política. Examinou, em Los Hijos del
Limo e tantas de suas obras, os poetas que, começando
como progressistas e revolucionários, acabaram, decepcionados,
como reacionários. Exemplo máximo, Baudelaire,
que, sendo reacionário em sua crítica da democracia
burguesa, deixou uma herança revolucionária
ao transformar nossa percepção, não só
da literatura e das artes, mas da sociedade e do mundo. Além
disso, Paz não economizou críticas a autores
que, em um aparente movimento oposto colocaram sua arte a
serviço da revolução, como veículo
de mensagens, acabando por rebaixá-la ao torná-a
prosaica ou sectária. Incluiu nessa categoria ninguém
menos que Neruda e Eluard, entre outros grandes nomes.
Em um de seus últimos livros,
A outra voz, espécie de sinopse ou testamento de seu
pensamento sobre poesia, Octavio Paz voltou a perguntar: Qual
pode ser a contribuição da poesia na reconstituição
de um novo pensamento político? Não idéias
e sim alguma coisa mais preciosa e frágil: a memória.
A cada geração os poetas redescobrem a terrível
antigüidade e a não menos terrível juventude
das paixões. Sua resposta é clara: Pela
boca do poeta fala advirto: fala, não escreve
a outra voz. É a voz do poeta trágico
e a do bufão, da solitária melancolia e da festa,
é a risada e o suspiro, a voz do abraço dos
amantes e a de Hamlet diante do crânio, a voz do silêncio
e a do tumulto, louca sabedoria e sensata loucura, sussurro
de confidência na alcova e cheiro de multidão
na praça.
Essa outra voz não é
audível por todos, e não irá necessariamente
atingir o grande público. Citando-o novamente: ...um
dos traços característicos da poesia moderna
é sua decidida vontade minoritária. Na primeira
metade do século passado todos os grandes românticos
europeus tentaram conquistar um vasto público de leitores;
alguns conseguiram, como Byron, Hugo e Lamartine. Depois,
à medida que a grande chama romântica se apagou,
os poetas se retiraram da cena pública. Desde os grandes
simbolistas, a poesia tem sido rebelião solitária,
subversão no subsolo da linguagem e da história.
Nenhum dos poetas que inauguraram a modernidade procurou a
aprovação da maioria; todos, ao contrário,
escolheram de modo deliberado escrever contra o gosto do público.
Rimbaud e seus herdeiros da primeira metade do século
XX ilustram um aspecto dessa tendência; a outra, mais
puramente estética, é a de Mallarmé e
seus seguidores.
Dispõe-se, portanto,
a navegar contra a corrente os participantes de Tempos Perplexos
e da oficina literária que originou esta publicação.
Alguns dos seus autores, como Juan Carlos Latorre,
Edson Aquino e Radi Oliveira, quase desenvolvem
uma argumentação, ao buscarem, através
do poema, uma descrição de aspectos do mundo
que os cerca. Outros, como José Geraldo Neres,
expressam o que se passa em sua subjetividade, os sentimentos
e emoções diante do que ocorre ao seu redor.
Seguem, portanto, a trilha romântica, mesmo adotando
a forma aberta, moderna, em alguns até o texto em prosa,
com um formato de crônica ou prosa poética. E
outros ainda, a exemplo da própria coordenadora do
trabalho, Beth Brait Alvim, querem, não a representação
ou descrição, mas uma apresentação,
uma transcrição literária de um mundo
fragmentado, desconexo, através de uma escrita igualmente
fragmentária, com palavras soltas, rompendo nexos sintáticos.
A tônica dominante nesses trabalhos
é a expressão da perplexidade, justificando
o título da coletânea, associada a outros sentimentos
e emoções: a revolta, a piedade, o susto, o
desgosto. Eles se traduzem através de uma diversidade
de modos de escrever, estilos e gêneros, permitindo
afirmar que essa coletânea, embora tenda à unidade
temática, surge sob o signo da pluralidade de soluções
literárias. Certamente, muitos percorrerão o
caminho que vai dessas manifestações enfáticas
até a emissão da outra voz, comentada acima.
A continuidade de iniciativas como essa oficina literária,
a publicação de seus resultados, possibilitando
o debate, a crítica e, principalmente, sua fruição,
será decisiva para que se avance por essa trilha. Isso,
pelo que as oficinas trazem de possibilidade de interação,
de troca de experiências e informações
entre aqueles que criam. E por seu estímulo à
leitura, à tão necessária, como já
assinalava o autor de Literatura e Revolução,
assimilação de toda uma herança cultural,
da qual fazem parte autores rebeldes e malditos, contemporâneos
e de outras épocas.
Pelo que já foi realizado, e
pelas perspectivas abertas, ao se disporem a prosseguir esse
trabalho, estão de parabéns as pessoas e as
instituições responsáveis por este Tempos
Perplexos.
Claudio Willer
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